terça-feira, 31 de julho de 2018

CRÍTICA: MAMMA MIA! LÁ VAMOS NÓS DE NOVO


Eu queria ter gostado mais desse Mamma Mia 2. Aliás, “mais” não é bem o termo correto. Eu queria ter pelo menos gostado, e ponto. Seria tentador dizer que a culpa do resultado final é que faltou Meryl Streep - e, de fato, esse é um dos problemas. Mas o principal tropeço de Lá Vamos Nós de Novo é que o filme jamais consegue justificar sua existência. Embora gire em volta do primeiro, não consegue acrescentar muito a ele, e tampouco dá continuidade à história de Sophie (Amanda Seyfried), ou Donna (Streep) ou qualquer uma das outras figuras carismáticas que habitavam o divertido longa original.



Aliás, se tem algo que sobrevive nesta sequência é o magnetismo dos personagens trazidos de volta de Mamma Mia (2008) - ainda que o roteiro e, certamente o orçamento, tenha reduzido significativamente o tempo de tela de atores como Colin Firth, Stellan Skarsgard, Pierce Brosnan e, claro, da própria Meryl Streep, que surge em nada mais do que uma ponta glorificada. A trama aqui se desenrola em dois tempos: no presente, durante a reabertura do hotel que pertencia à Donna Sheridan, e no passado, durante a juventude da mesma, quando chegou à pequena ilha na Grécia e decidiu que iria viver ali.


E aí já está um dos grandes desequilíbrios do projeto. No tempo presente, quem assume o protagonismo no lugar de Donna é Sophie, e Amanda Seyfried está longe de ser uma Meryl Streep, o que não seria problema se ela não tivesse que fazer frente às impagáveis Julie Walters e Christine Baranski. Enquanto isso, o oposto ocorre no tempo passado: são as intérpretes mais jovens de Rosie e Tanya que representam um vácuo de carisma em comparação com a energia contagiante de Lily James como Donna. E essa sim faz jus à Meryl Streep, emulando seus trejeitos e até mesmo o modo típico da atriz de gargalhar jogando a cabeça para trás. Além disso, James é dona de uma energia que convence o espectador do fascínio gerado pela garota nas pessoas ao seu redor - e é uma das poucas somas que a continuação faz ao filme anterior, já que, até então, só tínhamos conhecido a versão mais velha e amargurada de Donna.


O que acarreta noutro pequeno acerto de Mamma Mia 2 (eu só não quero escrever todo o título de novo): a falta da versão adulta da personagem não é sentida apenas pela ausência do carisma que Meryl Streep poderia conferir ao núcleo do presente, mas também pela melancolia deixada no seu lugar. Há, evidentemente, um vazio insuperável na vida dos personagens que agora tentam ajudar Sophie a reabrir o hotel de Donna em grande estilo, e o espectador só partilha deste sentimento porque, ao intercalar passado e presente, o filme nos lembra constantemente que aquela jovem sorridente e cheia de músicas do ABBA na ponta da língua, já não pode contagiar mais ninguém com sua energia no futuro.


Infelizmente, isso acaba não sendo estofo o suficiente para justificar as duas tramas. E que surpresa é constatar que entre os roteiristas do projeto está Richard Curtis, que escreveu e dirigiu os adoráveis Simplesmente Amor e Questão de Tempo - sendo que este último se beneficiava justamente de não possuir um conflito central que motivasse o andamento da narrativa. Já o roteiro de Mamma Mia 2 não consegue o mesmo feito. Se um casal se desentende, os dois acabam fazendo as pazes facilmente (e isso acontece pelo menos três vezes nas quase duas horas de duração); se uma tempestade atrapalha as coisas (no passado e no presente), o infortúnio acaba dando bons frutos logo em seguida aos personagens - parece que os empecilhos são criados por capricho, e não para levar o filme a algum lugar.


E não se trata, sequer, de uma falta de ideias, mas de um medo muito óbvio do projeto de mexer demais com os arranjos do primeiro - embora pequenos detalhes contados antes sejam esquecidos aqui. Isso acaba refletindo, inclusive, no que deveria ser um dos grandes atrativos da produção: as músicas do ABBA. Ao contrário do longa original (baseado na peça de Catherine Johnson), Lá Vamos Nós de Novo pouco se utiliza do repertório da banda sueca como força narrativa, e muito se aproveita das canções que tinham sido iconizadas no outro filme. Por exemplo, é possível ouvir os acordes de Take a Chance on Me quando a jovem Rosie (Alexa Davies) põe os olhos num Bill (Josh Dylan) ainda garoto, da mesma forma que, quando as três Dynamos se reencontram, a trilha assume um arranjo instrumental de Chiquitita, remetendo às canções que marcaram esses núcleos e duplas anteriormente - o ápice da reverência chega quando Lily James reencena a canção que dá título a todo o projeto.


Apenas o uso de Waterloo e Fernando trazem algum toque de originalidade, a primeira pela coreografia envolvida, e a segunda pelos artistas envolvidos - ainda que a participação de ambos seja completamente aleatória dentro da (falta de) história. Ou seja, Mamma Mia 2 não serve nem mesmo como entretenimento ou pura experiência sensorial - Phyllida Lloyd foi uma diretora equivocada, mas Ol Parker também não é um grande acerto para chamar atenção pela forma. Sim, os rostos conhecidos estão à frente de alguns dos momentos mais divertidos do filme, e os novos personagens (especialmente um extremamente crítico fiscal da alfândega) são absurdos o suficiente para conquistar rapidamente a familiaridade com o espectador, assim como é engraçado ver o modo como o projeto utiliza os veteranos Cher e Andy Garcia aqui e ali. Mas essas são apenas curiosidades eventuais, e jamais chegam perto de sustentarem o filme inteiro.


Por outro lado, Mamma Mia 2 se preocupa escancaradamente com a representatividade em cena - talvez por saber que tem um elenco basicamente branco e heterossexual. Repare como o diretor Ol Parker faz questão de destacar figurantes ou meras pontas de pessoas negras, LGBTQs e portadoras de alguma deficiência. Acaba sendo um pouco estranho? Sim, até porque o filme não fala desses assuntos. Porém, toda representatividade é bem-vinda, ainda mais em tempos conservadores e violentos como os que vivemos hoje (e não só aqui no Brasil, mas no mundo). Além disso, musicais (e o teatro em si) já foram (e são) o palco de diversos movimentos e protestos de minorias por direitos e visibilidade. Se a trama do filme não toca no assunto, ainda é apenas apropriado que um musical reconheça que tem o dever de ser mais inclusivo - o que é o maior mérito dessa produção.


Nota: 4/10

Um comentário:

  1. Adorei como fizeram a historia por que não tem nenhuma cena entediante. Mamma Mia se tornou no meu filme preferido. Sua historia é muito fácil de entender e os atores podem transmitir todas as suas emoções. O elenco tambén foi excelente, adorei a participação de Andy Garcia, ele é um ótimo ator. Adoro porque sua atuação não é forçada em absoluto. Suas expressões faciais, movimentos, a maneira como chora, ri, ama, tudo parece puramente genuíno. O vi recém em Tempestade, foi maravilhoso. É um dos melhores filmes de suspense é sensacional! Eu gostei a história por que além das cenas cheias de ação extrema e efeitos especiais, realmente teve um roteiro decente, elemento que nem todos os filmes deste gênero tem.

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