segunda-feira, 19 de novembro de 2018

CRÍTICA: ANIMAIS FANTÁSTICOS - OS CRIMES DE GRINDELWALD



A melhor coisa sobre o universo concebido por J.K. Rowling, hoje desdobrado em 7 livros e, agora, 10 filmes, é, sem dúvidas, a criatividade da escritora. Quando retomou a saga do mundo bruxo há dois anos em Animais Fantásticos e Onde Habitam, foi um deleite perceber que se tratava de um filme com algo a dizer e, melhor ainda, com coisas novas para apresentar. Não que Os Crimes de Grindelwald perca estas características, inclusive, dá vários passos à frente e se assume de vez como alegoria política - algo com que Rowling sempre flertou e agora torna-se fio condutor da narrativa. Por isso, o novo capítulo certamente é mais ambicioso do que o anterior, e embora tome o tempo necessário para contar sua história e desenvolver os velhos e novos personagens, ao subir dos créditos, depois de ser bombardeado de informações, o espectador pode ficar com a impressão de que o longa é um pouco mais confuso do que realmente é.

Ainda assim, os problemas do filme são pontuais. Alguns nem chegam a ser erros, pois obviamente são fruto de opções estéticas e narrativas racionais - das quais, claro, se pode discordar, como eu fiz. Por exemplo, quando o longa tem início, alguns meses após o desfecho do anterior e acompanhando a fuga de um certo bruxo das trevas das garras da lei, a sequência de ação que se desenrola é escura e confusa. David Yates, assinando nada menos do que sua sexta direção na franquia, faz cortes demais entre planos fechados e tremidos que apenas concedem uma noção geral de quem está aonde e fazendo o quê. Ora, eu vivo aqui batendo na tecla de que uma cena de ação divertida e empolgante precisa ser compreensível, não só do ponto de vista da disposição espacial dos elementos envolvidos, como também sobre os objetivos dos personagens nela. Porém, fica claro que Yates não visa criar um momento nem divertido e nem empolgante. Cineasta que sempre trouxe consigo um peso político para o universo mágico de Harry Potter (não surpreende, portanto, que Rowling esteja feliz trabalhando com ele, ainda mais nessa nova fase), o diretor obviamente constrói essa sujeira visual como forma de expressar o sentimento caótico de uma perseguição aérea, noturna, em meio a uma tempestade e envolvendo feitiços, vassouras e uma diligência puxada por cavalos alados que, ainda por cima, são invisíveis à maior parte das pessoas.


Yates já havia priorizado mais o sentimento agoniante de confusão perante batalhas selvagens nos outros títulos da saga (vide a cena dos 7 Potters em Relíquias Parte 1), além do que, quando quer se fazer entender em coreografias de ação, o cineasta se sai muito bem. Entretanto, aqui trata-se da cena de abertura de um projeto de grande alcance. Outros diretores com uma veia menos política talvez não tivessem resistido ao impulso de se apropriar das perseguições de western para compor esse prólogo, e provavelmente eu teria preferido que tivessem optado por essa versão hipotética e mais "comercial".


O roteiro, novamente assinado por Rowling, retoma a partir daí a história do magizoólogo Newt Scamander (Eddie Redmayne) quando este é abordado por ninguém menos do que Alvo Dumbledore (agora vivido em sua versão mais jovial por Jude Law). O bruxo, então professor em Hogwarts, precisa que seu ex-aluno encontre Credence (Ezra Miller), o jovem mago que por ter seus poderes reprimidos, desenvolveu uma síndrome que torna sua mágica instável. Entretanto, Newt precisa encontrá-lo antes desse tal Grindelwald do título (Johnny Depp), um mago extremista que enxerga os bruxos como uma raça superior ao resto da humanidade não-mágica (trouxa, para os letrados na saga).


Uma trama simples, não fosse o caso de envolver também (vamos lá, leia a tudo a seguir num fôlego só, ok?): o noivado entre o irmão de Newt, Teseu Scamander (Callum Turner), e sua antiga paixão dos tempos de escola, Leta Lestrange (Zöe Kravitz), que por sua vez esconde um segredo envolvendo um irmão perdido que muitos consideram morto, o que não é o caso de Yusuf Kama (William Nadylam), herdeiro de uma linhagem de sangue-puro que, por algum motivo obscuro, precisa encontrar esse menino Lestrange desgarrado. Isso tudo sem contar a busca de Credence por respostas, contando com a ajuda de Nagini (Claudia Kim), moça amaldiçoada a se transformar em uma serpente que serve de atração forçada num cruel circo itinerante, as turbulências que toda essa situação traz para a relação entre Newt e a auror Tina (Katherine Waterston), e ainda os conflitos entre o trouxa Jacob (Dan Fogler) e Queenie (Alison Sudol), proibidos de se casarem pelas leis bruxas da época.


Ufa… Retomando.


Sim, como se percebe pelo parágrafo acima, Os Crimes de Grindelwald propõe muitos arcos distintos com suas dinâmicas e resoluções próprias. Portanto não surpreende que o filme soe apressado e “poluído”, ainda que, na prática, o ritmo e o tom não denunciem tais aspectos. Na verdade, a estrutura concebida por Rowling e Yates é bem paciente, cada cena se desenvolve sem pressa e com a presença constante de diálogos, que quase sempre tentam evitar parecer tão expositivos - nem sempre são bem sucedidos, uma das exceções fica por conta de certo monólogo perto do clímax que soa pouco natural e ainda desanda o crescendo em direção ao ápice dramático do filme. Tanta história cobra o seu preço, algumas delas ficam mal-contadas e com elementos sobrando. E embora sirvam como curiosidades interessantes aos fãs da saga, a presença de Nagini e Nicolau Flamel (Brontis Jodorowsky, filho do cineasta Alejandro Jodorowsky), é dispensável à trama - qualquer uma das trocentas. Mais parece o que realmente são: peças colocadas para serem resgatadas nos próximos episódios.


Por outro lado, eu tenho que defender que o excesso de subtramas é interessante do ponto de vista referencial, pois namora com a ideia de um thriller ou um suspense policial noir, cujos exemplares recorrentemente utilizavam esse emaranhado de arcos para confundir o espectador e criar nele a sensação niilista e agonizante de confusão frente a um mundo sombrio e cruel em que cada um tem objetivos próprios e egoístas. E levando-se em conta a época e os locais em que os filmes Animais Fantásticos vem sendo ambientados, é coerente que se apropriem de elementos deste influente movimento do Cinema.


Aliás, não só em questão de estrutura narrativa, mas visualmente a franquia tem acenado também aos conhecidos Filmes Noite. Se a faixa de luz que surge sobre os olhos do vilão já na primeira cena do filme não esconde as inspirações noir de Yates, o vestuário de Tina e do resto dos aurores, por exemplo, com seus sobretudos longos de lapelas altas e ombreiras largas, não só reconstituem muito bem o final dos anos 1920, como também invocam os tipos misteriosos que resolviam crimes ardilosos sob uma paleta preto e branca nas telonas da década de 1940. Inclusive, a figurinista Colleen Atwood, vencedora do Oscar por seu trabalho no filme anterior, é destaque novamente compondo roupagens não só coerentes na elegância e detalhismo, como na tarefa de criar um diálogo entre o filme seu público.


E nesse ponto considero particularmente interessante o modo como a figurinista traz Queenie em cores ainda dentro dos tons leves com que a vestiu anteriormente, mas agora diluídos em listras num tecido preto, sugerindo desde o início os rumos sombrios da personagem - o próprio sobretudo rosa do filme anterior retorna desbotado e sem vida. Enquanto isso, Atwood também demonstra uma sintonia apurada junto ao departamento de maquiagem ao conceber o figurino de Grindelwald com uma mistura entre a elegância clássica trazidas pelo colete, pelos sapatos lustrosos e o casaco ajustado, e o despojo jovial de novas ideias alardeados pelo cabelo arrepiado, as golas e lapelas abertas, a gravata enfiada pelo lado de dentro da camisa e alguns detalhes em cores chamativas misturadas ao preto e o branco.


Ainda assim, o detalhe mais esperto sobre a visualidade do vilão é a heterocromia de seus olhos. De aspecto sinistro, o olho direito do algoz é menos um elemento diegético (ou seja, que faz parte do universo percebido pelos personagens), do que um agente mediador entre filme e público. Veja bem, Grindelwald, diferente de Voldemort, é um vilão político. Ele representa o discurso sedutor do fascismo em sua fase embrionária, com clamações vagas e genéricas, mas colocadas de forma eloquente e em boa retórica, gerando identificação por uma causa comum contra um inimigo em comum - normalmente, uma parcela da população estereotipada. O discurso desse tipo de inimigo muitas vezes é calmo e carismático, prega contra a violência quando, na verdade, está justamente instigando-a em sua forma mais brutal. Vivido com uma dicção e gestos elegantes que fazem jus ao seu figurino, Johnny Depp compreende muito bem que a força de Grindelwald é a imagem que ele vende de si mesmo. E por isso o olho é importante, ele lembra o tempo inteiro ao espectador de que tem algo estranho e maléfico por trás daqueles gestos gentis e daquele discurso supostamente pacifista e anti-belicista que acusa o outro lado de ser violento. Não por acaso, em seu discurso final, Yates o filme pelo lado do "olho bom", enquanto em outro, quando tenta convencer alguém de suas boas intenções, é visto de frente e entre dois espelhos, ressaltando de várias maneiras a dualidade do que está dizendo. Por isso considero que esta é uma das concepções visuais mais inteligentes que um vilão ganhou nos últimos anos.


Igualmente curioso é notar que, agora, não há mais sombra de dúvida de que Eddie Redmayne interpreta Newt como alguém dentro do espectro autista. O ator repete os tiques e maneirismos de antes, como a dificuldade em encarar os interlocutores nos olhos, a não ser, claro, quando se tratam das criaturas mágicas que tanto admira. Porém, também investe em novas nuances do bruxo que ressaltam a sua inocência sem jamais fazê-lo soar ingênuo - como o nervosismo com as mãos ao lado do casaco ou o modo natural com que segura sua varinha, que denuncia não só um gesto corriqueiro, mas também que ele evita chamar atenção mesmo durante o ato mais comum de um bruxo: realizar um feitiço.


E ainda que alguns deles tenham menos tempo de tela, Ezra Miller, Katherine Waterston, Dan Fogler e Alison Sudol reafirmam seus personagens e o endurecimento que os meses de conflitos mal-resolvidos trouxeram, ao passo em que Callum Turner e Zöe Kravitz, quase que de passagem, estabelecem figuras com quem é possível, ao menos, compreender e simpatizar. Trabalho no qual Jude Law tem um pouco mais de espaço para se estabelecer como o jovem e icônico Dumbledore. Embora longe dos figurinos excêntricos com que era descrito por Rowling nos livros, o personagem surge na pele de Law corretamente bem-humorado, mas exalando a competência e a perícia de que sabemos ser capaz - e, o mais curioso, fazendo com que essa aura de carisma soe como uma defesa pessoal do professor contra os demônios que traz consigo em seu coração. E o trabalho admiravelmente econômico do ator pode ser medido pelos diferentes modos como olha para certo espelho conhecido dos fãs.


Tendo como clímax não uma sequência eletrizante de ação, mas simplesmente um discurso, Os Crimes de Grindelwald é coerente a sua temática e confirma com isso, seja para o bem ou para o mal, o que disse Dumbledore há alguns filmes atrás: “as palavras são a nossa fonte mais inesgotável de magia”. Mesmo aberto e deixando mais pontas soltas do que seria o ideal, a nova investida no mundo mágico concebido por Rowling é inegavelmente bem sucedida ao expandi-lo, especialmente no que tange o trabalho do excepcional Stuart Craig, veterano da série que cria ambientes não só distintos e ímpares, como donos de uma beleza plástica hipnotizante, como serve de exemplo os tons de verde que tomam conta do ministério da magia francês, o porão de Newt que nada mais é do que uma versão divertidamente extrapolada de sua maleta, e a imagem marcante que é a cidade de Paris coberta em véus negros (nada práticos, por sinal, e por isso mesmo perfeita ao simbolizar a macabra megalomania do bruxo que a conjurou). Assim, o novo capítulo pode ser mais falho e questionável do que o exemplar anterior, mas não faz feio ao legado da franquia e é uma visita revigorante a este universo tão rico.


Nota: 8/10




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