terça-feira, 7 de maio de 2019

CRÍTICA: NÓS


Com certeza um dos filmes mais instigantes que estrearam este ano, Nós, novo longa-metragem de Joradan Peele, chegou aos cinemas. Repleto de um simbolismos e dono de uma narrativa que conquista a estranheza do público sem que este precise descifrar as suas metáforas, a nova empreitada de horror do diretor de Corra! enerva pela tensão e ainda levanta questionamentos e aponta dedos feios para a História dos Estados Unidos, mas de forma geral, também para todas as nossas histórias. Comentei sobre os recursos narrativos utilizados pelo projeto e ainda sobre as minhas interpretações no vídeo abaixo:


terça-feira, 30 de abril de 2019

GAME OF THRONES S08E03


GAME OF Whathefuckishappeningrighthere


Não decepcionante, mas longe de ser tão épico quanto gostaria, o terceiro episódio dessa reta final de Game of Thrones foi um erro estético que oscilou entre momentos empolgantes e outros aborrecidamente anti-climáticos. Se Arya protagonizou todos as melhores cenas deste capítulo, foi porque parecia a única pessoa agindo como se estivesse de fato naquela batalha, correndo risco de vida e sendo obrigada a tomar decisões desesperadas e inteligentes - ao contrário dos demais, que apenas pareciam ser exatamente o que são: personagens de uma série de TV sendo assistidos por milhões. Em algum ponto, Game of Thrones abandonou a força que retirava da imprevisibilidade dos seus eventos, e se tornou previsível justamente por continuar seguindo uma diretriz da qual o público não é mais refém, mas sim o próprio seriado. Nessa ânsia por chocar, por exemplo, o roteiro enfia duas mortes relevantes no meio de um momento de tensão crescente, fazendo-as soarem como distrações e, ainda pior, banalizando a despedida daqueles personagens, cujas saídas de cena tem pouco ou nenhum peso graças à falta de timing da estrutura do episódio - ficamos naquela: “tá, morre logo que eu quero ver o que vai acontecer agora”.


Aliás, não só por isso, mas a despedida de alguns personagens se dá de forma abrupta e sem grandes fechamentos. E eu entendo, a série quis retomar um pouco da ideia de “realismo” que era tão latente nas primeiras temporadas, quando os acontecimentos não pareciam dramaticamente adequados, mas por outro lado, eram muito verossímeis. Entretanto, algumas das figuras a quem damos adeus eram justamente aquelas que carregavam pontas soltas de outras tramas abertas e nunca fechadas em temporadas anteriores. Ou seja, não fosse o suficiente serem tirados do seriado de forma insossa, a saída dessas pessoas ainda soa como um recurso preguiçoso da série para cortar fora de vez essas pontas, ao invés de se dar ao trabalho de amarrá-las.

E nos poucos eventos dramáticos que realmente funcionam, GoT volta com seu probleminha mais preocupante das últimas levas de episódios: a espetacularização da morte e da violência. Veja, há uma diferença entre representar a morte em momentos catárticos e tratá-la como um espetáculo que tem fim em si mesmo. GoT recorrentemente tem esquecido que a despedida de personagens tem ou deveria ter peso para os outros personagens, que são ou deveriam ser momentos melancólicos para o público também. Deveríamos vibrar pela derrota de um vilão, pela vitória mesmo que em sacrifício de um herói, mas não deveríamos ter como regozijo a morte em si desses personagens - é uma mensagem no mínimo problemática.

Para finalizar, as escolhas estéticas do episódio sabotaram a ideia central do próprio: mostrar o caos e a escala da batalha de Winterfell. Sim, ficou bem claro que a produção queria passar para o espectador o modo como os personagens estavam se sentindo, ou seja, perdidos, confusos, sem saber o que estava acontecendo, sem saber quem estava vivo ou não, sem conseguir enxergar direito etc. Mas eu sou espectador, não sou personagem, eu só vou entender como os personagens se sentem se eu entender CADÊ os personagens, não é? Escuro, repleto de planos fechados, tremidos e colados uns nos outros sem qualquer sombra de intenção de estabelecer quem está onde em relação ao quê, a visualidade desse episódio foi terrível mesmo em cópias de ótima qualidade. Se a batalha de Winterfell ocorreu, eu não vi, não entendi e, consequentemente, não senti nada em relação a ela. No início de tudo, GoT se baseava no status quo, num plano virtual de poderes e naqueles que ousavam tensiona-lo através de ações específicas que deformavam o espectro político. Era esse o charme da série, os joguetes palacianos reféns das personalidades mais ou menos honrosas das figuras que ali habitavam. O espetáculo deveria ficar em segundo plano e não ser o astro principal aqui, quem sabe agora, do modo como as coisas ficaram configuradas para esses três derradeiros episódios, o seriado não se redima buscando um pouco mais de inteligência e menos show of - e, quem sabe, se possível, um pouquinho mais de luz nessa fotografia. Quero poder ENXERGAR o final da série.

CRÍTICA: CAPITÃ MARVEL


O filme de número 21 da Marvel chegou aos cinemas. Depois de uma década de lançamentos, Capitã Marvel finalmente traz uma mulher à frente de um projeto do MCU. Passado nos anos 1990, o longa promete romper um pouco com a cronologia dos filmes anteriores, em preparação para a chegada de Vingadores: Ultimato, produção que deverá amarrar todas as pontas abertas nos últimos 10 anos de super-heróis. Brie Larson se sai bem no papel da heroína? Qual sua dinâmica com Samuel L. Jackson? O que o roteiro acrescenta a este universo? As cenas de ação funcionam? Isso tudo em um pouco mais eu falei no vídeo-crítica que você pode assistir logo abaixo:


Alguma opinião diferente sobre Capitã Marvel? Deixa aí nos comentários da postagem ou lá no canal do YouTube!

segunda-feira, 1 de abril de 2019

ANÁLISE FILME "NÓS" - AS VEIAS ABERTAS DA MEMÓRIA


Tentando não dar spoiler nenhum, mas de maneira que faça sentido para quem já assistiu ao filme, tentei escrever minha livre interpretação do filme de Jordan Peele e estrelado pela Lupita Nyong'o, Nós.


Quando desce pela toca do coelho branco, ou quando atravessa o espelho, Alice encontra num mundo escondido versões deturpadas e caricaturais das pessoas que conhecia na superfície. A obra de Lewis Carroll sempre carregou consigo a alusão de um mergulho no próprio inconsciente, nos desejos e medos profundos, nas insanidades retraídas da negação. Como indivíduos ou como sociedade, não podemos apenas mascarar os erros cometidos, dar a eles uma nova demão de tinta e dizer “pronto, está resolvido”. Não basta apenas admitir que se errou no passado, pois admitir sem reparar não é reconhecer o erro - e erros que você não consegue reconhecer, sempre voltam a aparecer no caminho, e como você não sabe como se parecem, volta a cometê-los.

Tais quais as vitórias, os erros também são parte de quem somos Nós. Fugir dos erros é, em retrospecto, fugir de si mesmo. Tanto o indivíduo quanto o país que apenas admite seu passado, mas não o repara e não reconhece os erros nele, está fadado a vivê-lo de novo. Quanto mais foge, quanto mais nega, mais profundos, densos e insanos se tornam os seus erros, fermentando sob a superfície. Um caldo grosso e violento feito de Nós mesmos, pronto para esguichar para fora da pele ao menor sinal de ruptura, vermelho como sangue.

Mas reparar e reconhecer um erro não é deixá-lo definir quem você ou Nós somos. Muito pelo contrário, é se libertar dele. Como pessoa ou como país, você se volta para dentro, desce até onde escondeu o problema e o enfrenta. O único modo de olhar para um erro e reconhecê-lo, mais do que isso, o único modo de olhar para um erro e não enxergar mais o próprio rosto nele, é encarando-o nos olhos. Clichê? Sim, mas hoje um clichê necessário. Somente assim, cortamos o cordão umbilical criado pela negação e pela fuga entre o erro e nós mesmos, eficiente como o fechar ágil e afiado de uma tesoura de costura.

De outro modo, qualquer pequeno corte faz sangrar um filete grosso desse sangue pressurizado sob a pele. Qualquer porta que se abre, faz o passado saltar para fora, violento, se estendendo de costa à costa numa corrente de erros, todos de mãos dadas, como se fossem as veias cheias de sangue inocente não reconhecido, não reparado.

A História tece a sua teia irregular, mas repleta de padrões, como as patinhas habilidosas de uma aranha, cujo número que as enumera, o oito, também simboliza o infinito. Um infinito de padrões repetidos, uma Dona Aranha subindo pela parede, derrubada pela chuva forte e voltando a subir, de novo, e de novo e de novo. Um assovio ecoando no escuro. Aqui, o indivíduo, a realidade política atual e um filme de terror convergem. Os genocídios do passado, os erros não sanados, os monstros no subsolo e os terrores do agora, de repente, se parecem demais com ninguém mais ninguém menos do que apenas Nós.

segunda-feira, 18 de março de 2019

Célico #0 - Eu não queria gravar vídeos


É isso aí, quem me acompanha aqui há algum tempo, sabe que o que eu gosto de fazer é escrever sobre cinema. Porém, ao contrário do que indicam o resultado das nossas eleições, aparentemente vivemos no Século XXI e as pessoas gostam de vídeos. Então eu vou fazer alguns deles TAMBÉM.

E esse TAMBÉM é para marcar que eu vou continuar escrevendo aqui, não importa o quê.


Enquanto isso, fica a chamadinha aí para o canal, assinem lá e curtam a página do Facebook, os textos vão começar a ser postados lá também.   

domingo, 24 de fevereiro de 2019

APOSTAS OSCAR 2019

Diferente do que eu fiz nos outros anos, neste eu dividi a postagem do Oscar em duas partes. Aqui ficaram apenas as apostas, minhas explicações e apontamentos eu transformei num Guia de Apostas Oscar 2019, que você pode ler clicando aí.

Dito isso, gostaria de lembrar que, humildemente, meu número de acertos a cada edição do Oscar costuma ser bem alto. Minhas surpresas são surpresas para todo mundo. Lembrando que, em vermelho, são as minhas apostas, e em azul, os filmes que podem acabar levando. Então, sem mais delongas, seguem os meus pitacos deste ano:

sábado, 23 de fevereiro de 2019

GUIA DE APOSTAS OSCAR 2019


Um guia para apostar no Oscar 2019



Você gosta de apostar em quem vai vencer o Oscar só pra se divertir? Ou tá querendo participar de um bolão? Pois aqui está um guia para isso.

Acontece que eu adoro apostar nos vencedores do Oscar todos os anos. E modéstia à parte, tenho um bom número de acertos a cada edição. Minhas surpresas costumam ser surpresas para todo mundo. Agora, eu não sou nenhum x-men com poderes místicos não, o que eu faço é observar as notícias, os indicados e sua repercussão na mídia, em outras premiações e o contexto de cada concorrente. Ou seja, eu dou meus pitacos depois de estudar muuuito a situação da indústria. Então, começando este ano, resolvi dividir esse compilado aqui para que outras pessoas possam brincar também. Espero que gostem e, se for útil, compartilha que o tio agradece.


Aqui você pode conferir todas as minhas apostas para o Oscar 2019, só clicar.



Como utilizar o guia?


Seguinte, pra ficar mais organizado, eu dividi as coisas aqui entre Premiações, Mídia, Méritos e Outras Considerações, e isso sobre CADA UM dos indicados - eu sou um anjo, eu sei, obrigado. Premiações. Para fins de avaliação: As premiações que mais pesam para a Academia são as dos sindicatos, o PGA (produtores, pesam na categoria Melhor Filme), DGA (diretores), SAG (atores), WGA (roteiristas), ACE (montadores), ASC (fotógrafos), CDGA (figurinistas), MUAHSG (maquiadores e cabeleireiros), ADG (diretores de arte) e VES (animadores gráficos) - até a data dessa postagem o sindicato dos sonoplastas (MPSE) ainda não tinha entregue o seu prêmio. Depois vem as grandes premiações gerais, como o BAFTA (o Oscar britânico), o Critics Choice, o Independent Spirit e por último o Globo de Ouro, o que menos pesa nas decisões porque realmente não é levado a sério por lá - porém, como tem membros da Academia que podem ser alheios a isso, influencia, nem que seja contra o indicado. Daí, por fim, há os festivais. Em primeiro Cannes, daí Veneza, Toronto e, quem sabe, Sundance. Mídia é o que outros veículos estão favoritando. Oscar é uma corrida publicitária, é preciso ser falado e falado do jeito certo, e ninguém melhor para medir esse termômetro do que a mídia local de Hollywood, por isso aqui entram as apostas de veículos de lá. Méritos. Por mais estranho que seja, é aqui que eu vou comentar os méritos dos indicados, se aquilo pelo que eles estão concorrendo realmente tem peso para ganhar e o porquê. E aqui tem um diferencial, sempre que eu inserir esta variável, é porque eu mesmo assisti ao filme (assisti praticamente todos) e fiz uma avaliação de estilo, impacto e assuntos. Já em Outras Considerações, quando existirem, eu vou falar de polêmicas, jogadas de marketing e demais fatores que podem influenciar na decisão da Academia. Prontos? Vamos lá!

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CRÍTICA: VICE


Cuidado: este é um texto de Esquerda, estejam avisados.


Tem gente que ainda fica chocada e se revolta quando descobre que os seus filmes favoritos carregam consigo uma ideologia. Todos os filmes carregam, pois são Arte, e Arte não existe no vácuo. Durante as eleições de 2018, por exemplo, teve fã de Star Wars entrando em parafuso quando descobriu o viés bem à Esquerda da saga. Afinal, como posso gostar de algo se eu discordo da sua ideologia, filosofia ou visão de mundo? Acontece que essa é uma das mais fascinantes nuances da Arte, você não precisa concordar com o que ela diz ou sequer entendê-la para apreciar os seus resultados. Dito isso, para quem se considera de Direita, vai ser difícil gostar de Vice.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

CRÍTICA: CREED II


Certamente que o principal músculo envolvido no sucesso das mais de quatro décadas da série de filmes Rocky, é o do coração. Sempre mais preocupados em desenvolver as lutas enfrentadas pelo boxeador do lado de fora do ringue, os longas protagonizados por Balboa jamais usaram do espetáculo de violência como um atrativo sádico por si mesmo, procurando explorar a psique do lutador título na tentativa de compreender suas relações e porque, afinal, é apenas entre as quatro cordas que consegue se expressar. Não estou dizendo que seus filmes sempre conseguiram entregar esse esforço da maneira excepcional que se vê em Rocky, Um Lutador (1976) e Rocky Balboa (2006), houve os trôpegos Rocky II (1979) e Rocky V (1990), além dos quase intragáveis Rocky III (1982) e Rocky IV (1985). O que me traz até este Creed II, cuja eficiência é tão notável que, ao resgatar elementos centrais do desastroso filme de 85, quase o faz parecer um bom prelúdio.

Sequência de Creed: Nascido Para Lutar (2015), o longa volta a ainda refrescante ideia de trazer o antigo protagonista e ex-personagem título da série como um coadjuvante, agora cedendo lugar no centro do palco (ou seria do ringue?) a Adonis (Michael B. Jordan), filho de seu rival e melhor-amigo, Apollo Creed. E se antes essa relação era um mero elo para ligar Adonis ao seu mentor, Rocky (Sylvester Stallone), agora ela se torna ainda mais relevante quando o lutador Ivan Drago (Dolph Lundgren) retorna à Filadélfia, mais de 30 anos depois dos tristes eventos de Rocky IV, e desafia o jovem Creed a enfrentar o seu filho, Viktor Drago (Florian Munteanu). Frente ao peso simbólico desta luta em particular, as relações de Adonis com seu amigo e treinador ficam abaladas, uma situação agravada quando o pugilista descobre que precisa lidar com novos desdobramentos de seu relacionamento com a cantora Bianca (Tessa Thompson).


Diferente do longa anterior, Creed II não conta com Ryan Coogler na cadeira de direção, uma vez que o cineasta foi dirigir Michael B. Jordan em Pantera Negra. Despontando nos últimos anos através do excelente e revoltante Fruitvale Station, e seguindo no currículo com Creed e daí para o já popular herói da Marvel na terra de Wakanda, Coogler se alavancou demonstrando, sim, um ímpeto por representatividade negra nas telonas, mas para além disso, provou ser capaz de sensibilidade e apuro audiovisual, algo que marcou bastante o outro filme. Agora quem assume o projeto é o desconhecido Steven Caple Jr., passando longe dos floreios do seu antecessor. Competente e, mais do que isso, promissor, Caple ainda assim emana uma certa crueza que Coogler já havia vencido em Creed, e quando digo isso, não é ao plano sequência da primeira luta de Adonis ou à corrida/homenagem do mesmo pelas ruas da Filadélfia a que quero remeter.

Tenho mais em mente momentos como aquele em o protagonista assiste a projeção de uma das lutas do pai, Apollo, ou aquele ainda que traz ele e seu mentor, Rocky, à beira das escadarias adotadas como palco tantos anos antes pelo velho lutador.

Mas se falta a Caple um pouquinho mais da ousadia que tinha o seu colega, ainda assim é inegável que o novato consegue criar momentos que oscilam com segurança entre o delicado e o divertido, como um sensível pedido de casamento ou um jantar que resulta numa notícia inesperada, sem contar que o realizador se sai particularmente bem quando quer sugerir perigo, estabelecendo a tensão apenas por revelar a presença de um personagem colocando-o sentado de costas para a câmera, ou, como faz noutro instante, por mergulhar em sombras o que era para ser uma mesa de jantar vitoriosa. Além disso, Caple é habilidoso ao compor alguns planos e enquadramentos, e gosto especialmente de como ele introduz Rocky na trama, não só encoberto pela escuridão, como também refletido de longe num espelho, quase como se o vulto que vemos fosse parte da consciência de Adonis.

Voltando a ser escrito por Sylvester Stallone, indicado ao Oscar de roteiro pelo filme original de 1976, e que tinha participado apenas em frente às câmeras no longa de 2015, Creed II resgata um pouco da estrutura de Rocky IV, algo que o próprio Rocky já trata de alertar em algum ponto do primeiro ato, relembrando que, depois da brutal derrota de Apollo nos EUA, ele teve de ir pessoalmente até a (então) União Soviética (agora, claro, a Rússia) para vingar o amigo. Com isso, já dá pra prever que arco Adonis irá percorrer aqui. Entretanto, como apontei lá em cima, esse universo sempre manteve as lutas mais como um pano de fundo, apesar de servirem como “respiros de ação” em meio à montagem, além de catalisar pontualmente para o espectador os conflitos dos protagonistas. Ou seja, o que interessa não é que luta vai ser perdida ou até qual outra ela vai levar, e se isso é previsível ou não, mas sim os desdobramentos que ligam um combate ao outro - ainda que, quando estes são o foco de alguma sequência, os efeitos sonoros e as ótimas coreografias acabam dando conta de demonstrar a eficiência dos golpes e o perigo envolvidos para os desafiantes.

E se uma das falhas mais aberrantes do filme de 1985 era a maneira como pintava de forma caricatural o vilão interpretado por Dolph Lundgren, aqui é justamente essa desumanização que acaba tornando o aprofundamento dos antagonistas tão interessante. Vivido quase que de forma muda por Florian Munteanu, Viktor, por exemplo, é apresentado como uma besta desenfreada, uma máquina de combate implacável e sem sentimentos. Porém, a decisão de Caple de abrir a projeção apresentando a dura rotina de treinamento do pugilista ao lado do pai, sugere para o espectador uma ligação emocional complexa entre o jovem e seu progenitor. Aliás, aquilo que o roteiro nos permite vislumbrar do lado dos “vilões”, vai aos poucos construindo uma relação da qual podemos inferir quase um todo: a amargura de Ivan, que provavelmente criou o filho enchendo a cabeça do menino com histórias sobre humilhação e revanche, e a sua gradual (e surpreendente) percepção de que um sentimento de ódio e repulsa não é o que deseja para o seu garoto.

Do outro lado, Michael B. Jordan demonstra um Adonis já mais maduro e menos explosivo, ainda que tão genioso quanto aquele que nos foi apresentado antes. Capaz de conferir ferocidade na postura da mesma forma como convence o espectador de sua doçura, Jordan estabelece uma dinâmica afinada com Tessa Thompson, com quem divide diálogos ainda mais azeitados do que aqueles que troca com Sylvester Stallone, ao contrário do que seria esperado. Thompson, inclusive, ganha uma personagem que poderia muito bem ser apenas a “namorada do herói”, mas muito ao contrário disso, sempre demonstra possuir sonhos e objetivos próprios, algo que a atriz é hábil ao demarcar como a carreira e os próprios demônios são algo de tanta importância para Bianca quanto o seu relacionamento com Adonis - e achei econômico e eficaz o modo como o texto configura um enfrentamento entre o protagonista e um publicitário nos camarotes de um show da moça, demonstrando que o namorado é um fã tão assíduo do trabalho dela, quanto acontece quando é ele que está em cima de um ringue. E se não por mais nada, esse detalhe ao menos denota uma parceria harmoniosa regendo o casal.

Já Stallone volta sempre com frescor a um personagem que, justamente por conhecer tão bem, ele poderia interpretar de olhos fechados. Mas não, o ator não cansa de investir nos maneirismos de Rocky e seu modo de se mexer, com os ombros balançando como se ainda estivesse lutando, assim como a sua tendência a manter os pés dando passinhos pra lá e pra cá. Além disso, o modo simplório como constrói suas frases continua inferindo uma inocência encantadora ao personagem, ainda que jamais denote ingenuidade - e o ator consegue passar a sua carga de sabedoria através de um quase onipresente olhar melancólico e dos modos rotineiros com que parece interagir com tudo, como se nada pudesse surpreendê-lo - até mesmo as duras acusações de seu pupilo, em dado momento, são recebidas com uma expressão de tristeza, sim, mas uma tristeza que parece ser familiar a ele. E de alguma forma faz muito sentido que, mesmo ao final da segunda década do Século XXI, Rocky ainda seja um adepto das agendinhas telefônicas de bolso.

Embalado ainda pela trilha empolgante de Ludwig Göransson, que novamente mistura e traz ainda mais marcado o tema icônico de Bill Conti em meio às suas próprias composições, Creed II é um projeto tão repleto de personagens carismáticos que o sentimento ao final, como aconteceu no desfecho do longa de 2015, é de querer vê-los de novo o mais rápido possível. E não de maneira formulaica e gananciosa, apenas para tirar uns troco, mas, como tem acontecido nessa nova fase do universo Rocky até aqui, com história sobre personagens que não apenas enfrentam uma luta de cada vez, mas que também aprendem com os hematomas do passado e voltam mais evoluídos, mais complexos e familiares. Espero ver outra vez Adonis, Bianca e, embora improvável, por que não um pouco mais de Ivan e Viktor Drago.

Nota: 8/10

    

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

CRÍTICA: A FAVORITA


O amor é estranho. E eu digo esquisito mesmo, torto e desconfortável. Ao menos, é o que parece pensar o grego Yorgos Lanthimos, diretor de obras que, até agora, se dedicaram a navegar entre os espectros mais bizarros do afeto humano - e, de certa forma, dos animais também. Ao dirigir os notáveis Dente Canino, O Lagosta e O Sacrifício do Cervo Sagrado, o cineasta tensionou a extremos caricatos as relações pessoais de seus personagens, tornando-as particularmente mais hipnotizantes justamente pelo modo impessoal e até frio com que constrói suas narrativas. E embora seja, de algumas formas, o seu filme mais comercial até agora, A Favorita ainda assim oferece uma experiência intrigante que não consegue deixar ilesa a atenção do espectador, girando em torno de cenas como aquela que traz uma moça ambiciosa masturbando seu pretendente enquanto monologa sobre seus planos, indiferente e até desdenhando a necessidade masculina de satisfação sexual em comparação com a escalada de poder que está arquitetando.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

CRÍTICA: COMO TREINAR O SEU DRAGÃO 3


Quando estreou em 2010, Como Treinar o Seu Dragão me chamou a atenção por trazer um roteiro corajoso. Apesar de repassar uma relação bastante batida entre homem, fera e a sociedade que a rejeita, a animação tomava decisões arriscadas que, no fim, serviam como pagamento em troca da comoção, que chegava no desfecho de forma natural. Para colocar tudo na ponta do lápis, não é qualquer filme voltado ao público infantil que amputa não um, mas dois de seus protagonistas. Aliás, é difícil encontrar produções para o grande público que tomem decisões definitivas e as assumam, pois normalmente os estúdios temem a rejeição e a falta de opções para se explorar em continuações.

Foi esse espírito que também me levou satisfeito para fora da sala de cinema em 2014, depois de assistir Como Treinar o Seu Dragão 2. Não só porque a sequência voltava a tomar um rumo ousado, mas também porque assumia uma passagem de tempo considerável na idade de Soluço, o herói da história. Veja bem, não digo que os momentos catárticos específicos de cada filme são tudo que há de bom neles. Não estou citando aqui a linda fotografia que o gênio Roger Deakins ajudou a construir no segundo filme, nem mesmo o design de produção criativo e minucioso dos cenários e personagens, tampouco me detenho na trilha empolgante de John Powell ou na concepção diversa dos astros deste universo, que são os dragões. E embora traga de volta a maioria dessas características, Dragão 3 é mais comedido e menos ousado, mais preocupado realmente em ser o derradeiro episódio da saga de Soluço e Banguela.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

CRÍTICA: HOMEM-ARANHA NO ARANHAVERSO


Um porco falante vestido de porcoaranha entrega um martelo de dimensões ridículas para o protagonista e diz: “Ele cabe no seu bolso”. O público ri, pois entende que em um universo concebido totalmente por animação, ele cabe mesmo.


Um dos maiores trunfos das produções animadas sempre foi esse “desapego” que os chamados desenhos têm do compromisso com as leis que regem a nossa não tão colorida realidade. Diferente de um live-action (filme com pessoas de carne e osso), a animação pode ser extremamente caricata ao ponto de beirar o abstrato, sem, com isso, tirar o espectador da imersão cinematográfica. E se filmes como Os Incríveis 1 e 2 já exploraram bastante essas potencialidades no modo como movimentam os planos e fazem cortes e enquadramentos que seriam impossíveis para uma câmera de verdade, Homem-Aranha no Aranhaverso extrapola essa ideia e utiliza quase todos os recursos narrativos, sejam visuais ou sonoros possibilitados pela animação, para tornar cada instante de projeção imersivo e cativante para nós aqui do lado menos divertido da tela.