sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

ANIMAIS NOTURNOS



Constantemente preferimos a versão romantizada de um evento, ou mesmo das pessoas, e esquecemos que na maior parte do tempo a vida supera com folga a ficção em criatividade – e se você tem problemas para acreditar nisso, reveja o ano do Brasil em 2016 (ora bolas, reveja o ano no mundo!). Animais Noturnos é um filme que compreende essa dinâmica da nossa percepção da realidade com os fatos, e usa de sua própria narrativa para ilustrar o quão sujeitos estamos à subjetividade particular – e se forçar o espectador a repensar a questão da perspectiva já seria angustiante o suficiente, a atmosfera densa criada pelo longa ainda busca causar desconforto com frequência, assim como a arte produzida por sua protagonista.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

OS MELHORES E PIORES DE 2016

É chegado o final deste ano horroroso, então vamos fazer o que a gente gosta: LISTAS. É hora de relacionar o que os últimos 360 dias trouxeram de bom (e o que podia ter sido bem melhor), então abaixo vou lançar minhas de listas de melhores e piores de 2016. Serão 4 dias de listas (Melhores Seriados, Piores Filmes, Melhores Filmes Nacionais e Melhores Filmes Estrangeiros), um por dia até o 31 de dezembro, nesse mesmo post.

Seguem agora o que considerei serem os destaques dentre os seriados, lembrando que só conto aquilo que chegou comercialmente ao Brasil durante o ano, não importa a plataforma (TV, streaming, home video):

OS MELHORES SERIADOS DE 2016



:: O MELHOR DO MELHOR ::

1 - STRANGER THINGS (1ª Temporada)
2 - LUKE CAGE (1ª Temporada)
3 - WESTWORLD (1ª Temporada)

:: TOP 10 ::

1 – THE PEOPLE V. O.J. SIMPSON: AMERICAN CRIME STORY
2 – THE GET DOWN (1ª Temporada: Parte 1)
3 – HOUSE OF CARDS (4ª Temporada)
4 – DEMOLIDOR (2ª Temporada)
5 – THE NIGHT OF (1ª Temporada)
6 – BETTER CALL SAUL (2ª Temporada)
7 – BLACK MIRROR (3ª Temporada)
8 – NARCOS (2ª Temporada)
9 – THE WALKING DEAD (6ª Temporada)
10 – THE OA (1ª temporada)

OS PIORES FILMES DE 2016
Essa é a lista de final de ano que eu menos gosto de fazer, juro, porque de uma maneira ou de outra, todo filme tem algo de bom, mas tem uns que se esforçam, então...

:: EMBAIXO DO FUNDO DO POÇO ::


1 - OS DEZ MANDAMENTOS: O FILME e É FADA! (empate técnico)
2 - COMO EU ERA ANTES DE VOCÊ
"...no mínimo desinformado, para não dizer corrompido..." minha crítica, AQUI.
3 - AS TARTARUGAS NINJA: FORA DAS SOMBRAS


:: OS 10 PIORES ::

1 - INDEPENDENCE DAY: O RESSURGIMENTO
2 - ESQUADRÃO SUICIDA
"...sabe como gostaria de ser, mas lhe falta coragem e inteligência pra chegar lá..."
minha crítica, AQUI.
3 - O BOM GIGANTE AMIGO (como fã de Spielberg, me dói colocar esse por aqui)
4 - DEMÔNIO DE NEON
5 - INFERNO (precisamente)
"...os envolvidos parecem desinteressados em dar a essa nova empreitada um sopro de alma sequer.." minha crítica, AQUI.
6 - A GAROTA DO TREM (Garota Exemplar mandou um beijo)
7 - DEUSES DO EGITO (achei que ia assitir o filme de Age of Mythology, era cilada)
8 - BONECO DO MAL
"...mise-en-scène parece um conceito antiquado para o diretor..." minha crítica, AQUI.
9 - BRUXA DE BLAIR
"...recursos preguiçosos são agravados pela completa falta de empatia do elenco e a falta de sutileza da direção..." minha crítica, AQUI.
10 - 13 HORAS: OS SOLDADOS SECRETOS DE BENGHAZI (colocar Michael Bay em décimo lugar numa lista de piores do ano é, na verdade, um elogio e um voto de confiança na carreira do cineasta. Continue melhorando, Michael!)



OS MELHORES FILMES NACIONAIS DE 2016




Nosso cinema é tão ruim, como adoram apontar por aí, que ficou até difícil escolher só 10 filmes pra lista de melhores do ano, e tive que criar uma lista de melhores dentre os melhores. Pro ano que vem, e para sempre, na verdade, vamos tentar assistir mais as nossas produções, como podem ver na lista abaixo, a gente faz filme bom pra tudo que é gosto aqui também.

:: O MELHOR DO MELHOR ::

1 – AQUARIUS
“Sobre o protagonismo que temos de assumir nas nossas próprias lutas...” minha crítica, AQUI.
2 – BOI NEON
3 – CINEMA NOVO

:: TOP 10 ::

1 – PONTO ZERO
2 – BIG JATO
3 – PARA MINHA AMADA MORTA
4 – O SILÊNCIO DO CÉU
5 – SINFONIA DA NECRÓPOLE
6 – MATE-ME POR FAVOR
7 – BR 716
8 – O ROUBO DA TAÇA
9 – MAIS FORTE QUE O MUNDO: A HISTÓRIA DE JOSÉ ALDO
10 – PORTA DOS FUNDOS: CONTRATO VITALÍCIO

OS MELHORES FILMES ESTRANGEIROS DE 2016




Os filmes com título em negrito, tem crítica no blog, basta clicar no nome.

:: Crème de la Crème ::

1) A Chegada
2) Os Oito Odiados
3) Anomalisa
4) A Juventude
5) Capitão Fantástico
6) O Abraço da Serpente
7) A Grande Aposta
8) Fogo no Mar
9) Elle
10) O Lagosta


Abaixo eu fiz um ranking com outros 30 filmes que foram considerados para entrar nos 10 melhores acima, e que merecem tanto quanto serem lembrados.

:: Top Série B ::

1) Spotlight: Segredos Revelados
2) É Apenas o Fim do Mundo
3) Steve Jobs
4) Hardcore: Missão Extrema
5) Rogue One: Uma História Star Wars
5) O Que Está Por Vir
7) Sieranevada
8) Bone Tomahawk
9) Animais Noturnos
10) Negócio das Arábias
11) Animais Fantásticos e Onde Habitam
12) Rua Cloverfield, 10
13) A Bruxa
14) O Regresso
15) Mogli: O Menino Lobo
16) Zootopia
17) O Quarto de Jack
18) Festa da Salsicha
19) Deadpool
20) Um Cadáver Para Sobreviver
21) Capitão América: Guerra Civil
22) Caça-Fantasmas
23) O Homem nas Trevas
24) The Invitation
25) Kubo e as Cordas Mágicas
26) Tangerine
27) Brooklin
28) Destino Especial
29) Snowden: Herói ou Traidor
30) Ave, César!

Até o ano que vem!



terça-feira, 27 de dezembro de 2016

SENSE8 - ESPECIAL DE NATAL



Escrevi para o Papo de Cinema sobre o especial de Natal da série, só clicar aqui.

"...relembra de saída o espectador sobre a força que Sense8 tem de inspirar discussões atuais e relevantes..."



quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

ROGUE ONE: UMA HISTÓRIA STAR WARS


O desafio de realizar uma história paralela de uma franquia já estabelecida na cultura popular é, sem dúvidas, assumir sua própria independência sem que esse esforço desvincule o projeto do seu material de origem. Um obstáculo que, por exemplo, o Prometheus de Ridley Scott falhou em transpassar, enquanto o mais recente Animais Fantásticos e Onde Habitam se saiu incomparavelmente melhor na tarefa. Rogue One: Uma História Star Wars segue o caminho desse último, mergulhando em uma história protagonizada por coadjuvantes que, você não sabia, mas precisava conhecer. Descomprometidas com a centralidade do universo concebido por George Lucas há 39 anos atrás, essas figuras são recorrentemente menos idealizadas que Luke, seus dilemas são mais dúbios que os de Han Solo e os arcos que percorrem, mais trágicos do que o de Anakin, dignos de personagens que vivem na periferia de uma grande aventura – e o que garante o sucesso do filme é entender isso sem deixar de tratar esse novo núcleo como parte essencial da galáxia tão, tão distante.

Ambientado logo antes de Episódio IV: Uma Nova Esperança, o longa acompanha a captura de Jyn Erso (Felicity Jones) pela Aliança Rebelde, força que luta contra o Império Galáctico e que precisa da moça para conseguir entrar em contato com um guerrilheiro extremista chamado Saw Gerrera (Forest Whitaker). O homem é um velho amigo de seu pai, Galen Erso (Mads Mikkelsen), sequestrado pelo Império quando ela ainda era uma criança, para projetar a construção de uma arma de destruição em massa (a Estrela da Morte), e que pode ter enviado a Saw, através do rebelado piloto imperial Bodhi (Riz Ahmed), uma mensagem contendo informações de como destruir sua monstruosa criação. Jyn então é colocada sob os cuidados de Cassian (Diego Luna) e do androide K-2SO (voz de Alan Tudyk), em uma missão que ainda vai agregar dois solitários guerreiros, Chirrut (Donnie Yen) e Baze Malbus (Wen Jiang), contra os esforços do ambicioso oficial Krennic (Ben Mendelsohn).

Vindo do eficiente Monstros e do fraco Godzilla, o cineasta Gareth Edwards se mostra surpreendentemente apropriado para conduzir o roteiro concebido pelos irregulares Chris Weitz (que já escreveu o bom Um Grande Garoto, assim como o insosso Cinderela) e Tony Gilroy (que já escreveu a boa trilogia Bourne, assim como sua insossa continuação, O Legado Bourne). Seu insistente uso de câmeras na mão e enquadramentos mais fechados, que aprendeu no cinema de baixo custo que realizava antes de partir para Hollywood, são ideais para criar o tom de urgência e a atmosfera de guerrilha nas cenas de ação. O diretor também tem o hábito de usar uma baixa profundidade de campo mesmo sob a forte luz do dia, concebendo a crueza adequada para sua estética. Além disso, demonstra ter amadurecido o suficiente para reconhecer que é necessário localizar o espectador e abrir o quadro para que veja o cenário inteiro (e o espetáculo visual).

Até porque, claro, se tratando de um Star Wars, os quesitos técnicos tem quase a obrigação de serem excelentes, mas ouso dizer que, não só por ser a mais recente das produções, Rogue One é também aquele que, dentre os oito filmes da saga até agora, melhor se utiliza da tecnologia para contar a sua história – e há peças essenciais de sua narrativa que simplesmente não funcionariam não fosse a assustadora competência da sua equipe de efeitos visuais. E Edwards merece pontos aqui também por saber lidar com esses elementos com o cuidado que merecem, revelando-os apenas quando necessário – e quando alguma referência à saga surge em tela, é notória a sua reverência, utilizando planos em contra-plongée (de baixo pra cima) que engrandecem figuras icônicas. Aliás, as referências aos demais filmes se distribuem por todo o projeto, às vezes de maneira mais óbvia, às vezes de forma bem mais sutil, e é uma boa surpresa que o filme saiba lidar com elas de maneira orgânica. Ou seja, não deixa de fazer o fanservice, que operam menos para agradar aos fãs do que para nos ambientar naquele conhecido universo, mas também não se torna dependente dele – algo que, por exemplo, apontei ser um possível equívoco em Deadpool, pois enfraqueceria o filme com o passar dos anos e as revisitas.

Demonstrando coerência com a maturidade de sua abordagem, Rogue One ainda dá um passo adiante na profundidade das alegorias e alusões que a série costuma fazer com a nossa própria história – e se antes o nazismo era a referência óbvia nas ações e concepção visual do Império, aqui surge um paralelo nada sutil com o imperialismo estadunidense em suas investidas no Oriente Médio, com embates entre extremistas e militares em meio a moradias pobres no deserto que, não fossem os lasers sendo disparados, poderiam ter saído de um filme sobre a invasão do Iraque (e notem como Jedha é apenas uma versão de Jerusalém habitada por alienígenas). E que traga um grupo de protagonistas tão etnicamente diversificado não é nenhum acaso. Dessa perspectiva, o clímax do projeto se inspira abertamente nas sangrentas batalhas do Pacífico durante a Segunda Guerra, tornando apropriada então a presença de personagens de origem oriental, enquanto os efeitos dos disparos da Estrela da Morte são flagrantemente copiados daqueles das bombas atômicas, que pontuaram esse conflito.

Fazendo jus, portanto, a toda essa concepção bélica, os “soldados” à frente do filme não poderiam deixar de ser figuras torturadas pelo conflito entre sua moral e os objetivos maiores que guiam suas causas. E se a apatia habitual de Felicity Jones serve bem a Jyn, endurecida pelo prematuro envolvimento com a guerra, Diego Luna e sua incapacidade de não soar carismático fazem Cassian um personagem pelo qual o espectador decide torcer desde o início, apesar de seus atos brutais. Enquanto isso é divertido notar Forest Whitaker, em um papel que remete ao Coronel Kurtz de Apocalipse Now, usar da mesma estratégia que Vincent D’Onofrio recentemente empregou em Sete Homens e um Destino para emular Marlon Brando (intérprete do icônico personagem): afinar a voz.

E se Riz Ahmed (que demonstrou esse ano no seriado The Night Of ser um talento promissor) pouco tem a fazer com seu Bodhi, é o Chirrut de Donnie Yen quem rouba a cena sempre que em tela – e é ele quem acaba sendo o “Jedi” que falta à produção. Assim, mesmo que o público saiba como a trama se encerra, é impossível não torcer por cada membro do grupo – mesmo o sarcástico e pessimista K-2SO, mistura interessante do Marvin de O Guia do Mochileiro das Galáxias, com o próprio C-3PO. É equilibrando então o gosto amargo do desfecho com uma cena final arrepiante de tão adequada (que farão os puristas até esquecerem que não tivemos os famosos letreiros iniciais dessa vez), que esse Rogue One se confirma como um dos mais acertados filmes da saga, mesmo que não traga como protagonistas os personagens que aprendemos a amar, embalados pelos temas de John Williams, que ainda assim marcam presença sob a batuta do sempre competente Michael Giacchino.

Apesar de encontrar um ou outro problema de ritmo, o longa se revela muito mais do que um filler (um filme feito para matar tempo enquanto o próximo episódio não fica pronto), e prova ser um exemplar com alma própria, justificando sua existência com o aprofundamento de um dos universos mais ricos já levados para o cinema. E mais, sua eficiência consegue enriquecer Uma Nova Esperança, que com esse "prólogo" ganha toda uma nova dimensão - e agregar conteúdo e complexidade a um clássico com quase 40 anos de idade é um feito quase tão admirável quanto os pequenos atos rebeldes que, apesar de se originarem na periferia de grandes histórias, podem levar a vitórias colossais contra o fascismo. O que, aliás, também é uma reflexão trazida para todos nós por Rogue One.  


9/10


quarta-feira, 30 de novembro de 2016

SULLY - O HERÓI DO RIO HUDSON


Sully: O Herói do Rio Hudson, baseado em uma história real, dirigido por Clint Eastwood e estrelado por Tom Hanks, era um filme bem melhor quando se chamava O Voo, era uma ficção, dirigida por Robert Zemeckis e estrelada por Denzel Washington. Embora também gire em torno de um acontecimento extraordinário envolvendo uma aeronave (em 2009, o piloto de um Boeing comercial fez um pouso de emergência no meio do Rio Hudson, em Nova York), a produção se sabota ao tentar expandi-lo através de conflitos artificiais que jamais se justificam em tela – ou na realidade.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

A CHEGADA


A Chegada é um filme que, apesar de tratar da visita de criaturas de outras dimensões, fala essencialmente sobre a necessidade urgente de aprendermos a fazer contato com os seres do nosso lado. É, também, uma narrativa que ilustra de forma certeira a natureza cíclica de nossas vidas, que apesar de pautadas pelo tempo, com um começo e um fim, não precisam e nem devem ser encaradas dessa forma tão linear, pois o ponto final de uma empreitada quase nunca é o seu objetivo, e mesmo aquelas que sabemos que provavelmente irão terminar em saudades, melancolia ou luto, são intensas o suficiente para justificarem sua dolorosa finitude.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

ANIMAIS FANTÁSTICOS E ONDE HABITAM


Depois de sete livros e oito filmes de Harry Potter, já é sabido que o talento da autora J.K. Rowling para a inventividade, assim como sua capacidade de criar personagens carismáticos, só fica melhor quando esses são colocados a favor de uma trama concebida como comentário acerca dos problemas do mundo real. Assim, é reconfortante constatar que seu retorno à saga, agora como roteirista, não se trata de uma empreitada mercenária, mas de uma obra agradavelmente delicada e pessoal que consegue surpreendentemente remeter as histórias anteriores, desenvolver uma trama própria e ainda instigar a curiosidade quanto ao rumo que esse novo arco vai traçar nos próximos filmes – sem jamais deixar de maravilhar com a criatividade desse universo.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

DOUTOR ESTRANHO


Gosto sempre de ressaltar que considero notável como a Marvel Studios, com todas as críticas que seus filmes podem receber, consegue ao menos manter uma coesão no tom de seu universo cinematográfico. Doutor Estranho não é diferente, só que desta vez, é exatamente isso que o impede de sair do muito bom, para o admirável. Frente às possibilidades excitantes que a história oferece, não deixa de ser um pouco frustrante que o roteiro jamais abandone os arcos batidos com que lida – apesar de esses se apresentarem bem executados e sólidos. Isso porque, mesmo que a favor de uma trama clichê, os méritos técnicos e criativos da produção a engrandecem, não deixando também de serem bastante inventivos na ação, o que torna tudo mais divertido.

terça-feira, 25 de outubro de 2016

A 13ª EMENDA


Em muitos países, o fim da escravidão significou apenas a adaptação do sistema econômico para assimilar novamente a antes mão-de-obra escrava. Nos Estados Unidos, a coisa não foi muito diferente. A chegada da 13ª Emenda da constituição pode ter representado virtualmente o fim dos trabalhos forçados, porém, na prática, não foi bem assim, pois um pequeno adendo do texto abria uma exceção dessa prática em relação a criminosos. Não demorou, portanto, para que aqueles interessados em retomar o poderio econômico, ou os que simplesmente não conseguiam aceitar a população negra vivendo entre os brancos, explorassem a brecha. E o que antes era chamado de “escravizar”, passou a ser denominado “criminalizar”.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

O CONTADOR


O Contador é um filme repleto de boas ideias, mas que jamais consegue fazê-las funcionar como um todo. O longa navega com dificuldade entre um momento e outro, já que o roteiro parece encantado demais com a sua própria criação para perceber os tropeços óbvios que ela acarreta. Além disso, a direção e a montagem quase nunca conseguem estabelecer um tom à narrativa, tornando-a muitas vezes monocórdica. Portanto, é surpreendente que a sensação quando sobem os créditos seja de que, apesar de tudo, assistimos a um bom filme.

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

INFERNO


Dan Brown é um autor cheio de boas ideias que normalmente não consegue lapida-las de forma plausível. Apesar disso, o escritor é hábil em manter o leitor interessado através de seus capítulos pequenos e dos “mistérios” que carregam - muito embora, normalmente seja preciso relevar seus vícios impertinentes, como o de repetir certas explicações diversas vezes. Não obstante, os filmes originados de suas obras costumam carregar problemas parecidos, ainda que façam um esforço honesto para contornarem os delírios de trama concebidos por ele – dessa forma, já foram produzidos o problemático O Código da Vinci e o bom Anjos e Demônios. Chegando então como a terceira aventura do professor Robert Langdon (Tom Hanks), Inferno mostra que, assim como nos livros, a fórmula cansou, e mesmo os envolvidos parecem desinteressados em dar a essa nova empreitada um sopro de alma sequer.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

FESTA DA SALSICHA


É sintomático que Festa da Salsicha gere polêmica, afinal, além do linguajar chulo e do humor grotesco, o filme ousa apenas sugerir violência, enquanto escancara o sexo sem pudores, o que representa uma "inversão de valores” absurda para a nossa sociedade moderna - ainda tão retrógrada. Partindo de uma premissa quase idêntica a de Toy Story, a animação logo se distancia das aventuras de Woody e Buzz ao apresentar como personagens, os produtos vivos de um supermercado. Desde sua ideia original, portanto, o longa brinca com a expectativa do público, inserindo personagens com um design típico de animações infantis, mas que não se poupam de um palavreado de baixo calão e de conotarem desejos sexuais através de suas funções alimentícias ou práticas. Fugindo, porém, de depender apenas das piadas fáceis e paralelos críticos mais óbvios, a nova produção idealizada por Seth Rogen e sua turma ganha contornos mais interessantes ao incitar debates tão necessários em meio a um projeto que não se reprime de ter como vilão uma ducha íntima.

Ganhando vida em uma dimensão alheia aos seres humanos, os alimentos e objetos à venda no Shopwell's não demoram a entoar uma canção alegre que celebra os seus deuses: os clientes. Sonhando com o dia em que serão comprados por um daqueles seres místicos, os bens nos corredores do mercado comemoram toda vez que um amigo é escolhido da prateleira, desconhecendo o terrível destino daqueles que são levados no carrinho de compras. É nesse contexto que conhecemos Frank (voz de Seth Rogen), uma salsicha que, como todas as de seu pacote, é um macho e vive para o dia em que poderá penetrar uma pão bisnaga. Apaixonado por Brenda (voz de Kristen Wiig), ele acaba causando uma confusão e ambos se perdem dentro do mercado junto com um bagel e um pão árabe. Na jornada para voltarem a suas prateleiras, os produtos descobrem o segredo cruel por trás da natureza dos clientes, e se dividem entre desacreditar os boatos ou divulgarem o que sabem para todos.

Quando falei sobre Sexo, Drogas e Jingle Bells, outro filme dos mesmos idealizadores de Festa da Salsicha, escrevi o seguinte: “Com um currículo que já conta com Superbad: é Hoje, Segurando as Pontas, É o Fim e A Entrevista, pode-se dizer que Seth Rogen é um Adam Sandler que deu certo. Ou seja, um comediante que faz filmes com basicamente sempre com os mesmos amigos, tanto na frente quanto atrás das câmeras (…) Além disso, seus longas (sim, seus, já que ou produziu, ou escreveu ou os dirigiu) costumam arrancar boas gargalhadas sem vitimar ninguém que não sejam os próprios personagens ou seus intérpretes – algo que 'comediantes' como Sandler e sua trupe, por exemplo, parecem não entender...”. Pois mantenho essas afirmações. Enquanto comediantes rasos tentam usar a vulgaridade por ela mesma para serem engraçados, sem reparar que estão sendo ofensivos (ou no melhor dos casos, apenas estúpidos), Rogen e seus amigos têm mostrado recorrentemente que entendem que o grotesco pode ser uma ferramenta eficiente quando associada a um roteiro mais esperto.

Portanto, quando as salsichas do pacote de Frank começam a classificar suas chances de sexo pelo comprimento de seus formatos fálicos, já fica claro que estamos diante de mais uma obra da trupe que, ao menos, vai compreender esse princípio. Mas Festa da Salsicha vai bem além disso, e logo percebemos que não apenas os formatos, mas a origem típica e mesmo a composição dos produtos determinam suas personalidades, nacionalidades, religiões ou etnias. E se a relação conturbada entre o begel judeu e o pão árabe soa como uma fonte previsível de piadas fáceis, assim como o corredor das bebidas alcoólicas ser uma enorme rave, a ideia de trazer os produtos não perecíveis como os “anciãos” da tribo (já que duram mais), e o paralelo traçado entre os clientes como deuses e a trajetória das grandes religiões monoteístas associadas a políticas fascistas, são sacadas bem mais interessantes. Principalmente quando o filme passa a abandonar qualquer pudor que ainda pudesse ter (já que, afinal, traz como heróis uma salsicha falante apaixonada por uma bisnaga vaginosa) e investe no sexo como o carro-chefe de sua temática. Assim, quando um dos personagens celebra “O paraíso é aqui!”, a interpretação em uma transposição para a nossa realidade fica bastante óbvia: o abandono dos valores conservadores deve levar a uma libertação – não só sexual, embora seja o exemplo usado pelo filme, mas de preconceitos e ódios que segregam a humanidade, o que geraria uma orgia de pluralidades.

Enquanto isso, a violência é inserida no projeto de forma sugestiva. Ou seja, projeta em usos comuns dos alimentos e comidas cenas de massacre, ferimentos graves, assassinatos e até estupro – e quando força o espectador a reimaginar essas sequências com o filtro da “realidade”, já que não estamos de fato vendo sangue e vísceras, o filme encontra os seus melhores momentos. Estabelecendo o mundo dos produtos como um lugar colorido e que distorce as paisagens ao redor, como se o mercado fosse um planeta inteiro, Festa da Salsicha contrasta esse design com aquele que reflete a visão dos clientes, mais dessaturada e quadrada. Assim, uma simples batida de carrinho num dos corredores, sob a perspectiva dos alimentos acaba se transfigurando num cenário de guerra, com inúmeras casualidades e uma atmosfera pós-apocalíptica, enquanto uma janta comum para uma cliente, é uma cena gore de horror do outro ponto de vista.

Impecável também em seu ritmo (que jamais permite um descanso nos absurdos apresentados), o longa-metragem já seria interessante apenas por ser uma animação com um design típico, mas de conotações sexuais e que aqui e ali tece críticas às políticas anti-imigração, ao extremismo religioso e à violência como método de resolução natural dos conflitos. Porém, o roteiro idealizado por Seth Rogen e Evan Goldberg (que co-dirigiu É o Fim e A Entrevista com o primeiro), além de fazer funcionar o seu humor de vulgaridades, também aproveita para celebrar a diversidade através dos inúmeros formatos, cores, tamanhos e funções dos produtos que compõe o ecossistema do Shopwell's – não deixando também de ser tudo isso uma grande alfinetada no capitalismo cego, que cada vez mais comercializa as pessoas como produtos de seus contextos (o imigrante, o homossexual, o judeu, etc.). Assim, antes de ser um filme tolo e imbecil recheado de piadas de masturbação, drogas e putaria em geral (o que ele também é), Festa da Salsicha é uma comédia bastante contundente nas críticas e paralelos que constrói, assim como na sua missão de ser relevante – e humor feito inteligente usando pertinência, é sempre bem mais divertido.



NOTA: 8/10

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O LAR DAS CRIANÇAS PECULIARES


É triste perceber que os méritos dos filmes de Tim Burton têm cada vez menos a ver com o fato de serem dirigidos por Tim Burton. Vindo do medíocre e completamente inexpressivo Grandes Olhos (que pelo resultado final, poderia ter sido feito por qualquer um), o distinto realizador encontra aqui outra história que discorre sobre suas temáticas favoritas, a mistura de morbidez e bom humor e o deslocamento de figuras centrais em um mundo sombrio e caricato. Porém, se por um lado Burton parece perseguir protagonistas que se encaixem nesses quesitos, por outro, é com tristeza que o vemos se tornar cada vez mais burocrático ao dirigir suas tramas.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

A GRAVIDADE DE LEMBRAR

Conto escrito pela minha pessoa:



Não conseguia mais dormir na sua cama. Já fazia algum tempo que uma mão pútrida batia na janela. Mosine agora se remexia no sofá da sala, sob a fina coberta que protegia sua pele do vento uivante que rebatia na soleira de entrada e passava por debaixo da porta.


Era uma mistura estranha de frio e calafrio, mas na prática o efeito era o mesmo. O relógio na parede, desses em forma de gato, em que a cauda pendula e os olhos felinos valsam de um lado pro outro, marcava 3 horas. O problema é que essa era a segunda vez que os ponteiros voltavam a esse número nesta mesma noite.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BRUXA DE BLAIR


O estilo found footage (esses filmes apresentados a partir do ponto de vista de uma câmera dentro da trama) acabou se tornando refém de sua própria popularidade, com produções que entendem cada vez menos que é a naturalidade e casualidade das filmagens subjetivas que causam o terror almejado pelos roteiros – REC, Cloverfield: Monstro e os dois primeiros Atividade Paranormal são exemplares eficientes justamente por compreenderem essa dinâmica. Portanto, é sintomático que o sub-gênero tenha retornado ao projeto que o tornou famoso, A Bruxa de Blair - que também acertava ao apostar na simplicidade. Funcionando então como continuação e, ao mesmo tempo, reboot da “franquia” (o segundo e péssimo filme é sumariamente ignorado), além de uma espécie de refilmagem do original, Bruxa de Blair (2016) faz um esforço honesto para atualizar a trama, lidando com uma realidade em que câmeras estão presentes de todas as formas, o que acaba sendo também o seu maior tropeço, já que essa diversidade de pontos de vista, a estabilidade pouco natural dos quadros e planos convenientes acabam retirando a crueza que é a alma desse tipo de narrativa.

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

AQUARIUS



Quando em certo momento de Aquarius, depois de investir em uma longa cena em torno da visita dos filhos de Clara (Sônia Braga) à casa de sua mãe (quando mantém planos fechados que nos aproximam daqueles personagens), Kleber Mendonça Filho enquadra a protagonista de longe se despedindo deles, recuando o zoom enquanto revela a pequenez da mulher em meio a um pátio vazio e estruturas desabitadas, fica claro que estamos diante de uma obra sobre perda e solidão. Não só em relação às pessoas que amamos, aos lugares e às memórias que os recheiam, mas também como indivíduos em uma existência que, pela desigualdade social, ou até pela resistência em abandonar uma estrutura que há muito não abriga mais o calor de outrora, sempre acaba encontrando um jeito de nos fazer encarar o protagonismo que temos de assumir em nossas próprias lutas.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

ESQUADRÃO SUICIDA


A verdade é que Esquadrão Suicida não sabe que filme quer ser. Ou melhor, ele sabe como gostaria de ser, mas lhe falta coragem e inteligência pra chegar lá. Tente imaginar alguém palestrando sobre um tema que não domina, gaguejando de tópico em tópico enquanto emprega vários “hmmmm”, “ããhnnnn” e “unnnn” entre eles. Esse é o sentimento da primeira meia hora de projeção. A coisa é que o longa, dirigido e escrito por David Ayer (vindo do ótimo Corações de Ferro), desentende que vilões já são figuras empáticas por sua própria natureza - é muito fácil para o espectador se identificar com personagens que desprezam regras e adotam certas liberdades sociais/comportamentais, mesmo que condenemos suas ações. Ora, é isso que torna um Walter White, um Deadpool ou mesmo um Coringa concepções tão cativantes. Assim sendo, é decepcionante constatar que, além de um roteiro batido e cheio de furos, uma montagem caótica e uma direção no mínimo problemática, o filme ainda investe em um esforço vazio para sensibilizar o público sobre seus anti-heróis.

sábado, 4 de junho de 2016

WARCRAFT: O PRIMEIRO ENCONTRO DE DOIS MUNDOS


Nunca joguei Warcraft, e nem precisaria para reconhecer que o longa-metragem baseado no game é divertido e dramaticamente satisfatório. Filmes têm que se sustentarem sozinhos, independentes de qualquer outra obra na qual tenham se baseado, e nesse aqui é facilmente percebida a origem nos consoles, uma vez que não só alguns planos fazem questão de remeter a isso, como recorrentemente o roteiro incorpora a lógica de jogos (magias que custam energia para serem usadas, ou duelos com chefões cada vez mais difíceis, por exemplo). Apesar disso, e fugindo da sina de que sofrem a maior parte das adaptações desse tipo de mídia, O Primeiro Encontro de Dois Mundos funciona ao abraçar uma estrutura bastante cinematográfica.

terça-feira, 31 de maio de 2016

ALICE ATRAVÉS DO ESPELHO


Com um ritmo um pouco melhor do que o longa anterior, Alice Através do Espelho nos leva de volta ao País das Maravilhas, um mundo que, apesar de mágico, colorido e imaginativo, infelizmente parece ainda não refletir essas características nas jornadas investidas pela protagonista. Embora muito menos entediada como personagem, Alice se depara novamente com uma aventura burocrática, que carece de criatividade no roteiro em quantidade diametralmente oposta àquela vista na sua concepção visual. E a decepção só fica maior ainda quando o filme passa a lidar com viagens no tempo, e desperdiça o ótimo potencial que esse tipo de história pode gerar.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

X-MEN: APOCALIPSE


A força dos filmes X-Men nunca residiu apenas em seus méritos técnicos, ou unicamente em figuras emblemáticas, mas sim numa pauta que, transferida da nossa realidade para um mundo de fantasia, ganhou poder representativo e, portanto, humano. A aceitação das próprias diferenças e singularidades é um tema que conversa com a história de qualquer sociedade, principalmente nos dias de hoje, quando minorias e grupos sociais oprimidos como os LGBT, os pobres, os negros e as mulheres lutam para garantir igual direito a espaço entre os demais. Portanto é apenas apropriado que Bryan Singer, dirigindo o seu quarto filme da franquia dos mutantes, decida apelar na já tradicional sequência de abertura dos créditos, para um túnel que atravessa as eras da humanidade e seus diversos e tão únicos estilos, não deixando de passar também pela suástica nazista e nos lembrar não só do impacto que aquele movimento teve na história humana, como também o que ele representou: o extermínio de qualquer um que fugisse a um padrão estritamente estabelecido. Por isso que é um tanto frustrante que X-Men: Apocalipse, diferente dos 5 filmes anteriores da franquia, se concentre tão pouco nas questões políticas e sociais que antes eram o mote de todas as tramas, ainda que funcione ocasionalmente como algo a mais do que mais um filme de super-heróis. 

domingo, 15 de maio de 2016

ENSAIO SOBRE A PONTE


Você já ouviu aquela história?
Da garota com dor na memória?
Ela queria subir numa ponte e pular
Mas faltava ponte pra ela escalar
Não tinha ponte onde ela vivia
Um lugar pobre, na periferia
Onde apenas ela podia, a tarefa tão dura, tão fria
Uma ponte ali ergueria


Muitos livros devorou então
Aprendeu sobre o aço e o concreto
Sobre o laço e o vergalhão
Aprendeu a traçar um arco correto
E qual o cimento mais certo pra fundação

E já muitos anos fazia
Desde que com aquela agonia
Uma ponte fora construir
E agora que uma surgia
Com parapeito pra ela subir
Motivo já não havia
Pra no rio o corpo imergir


Em sentimento tão egoísta
Construiu obra tão bem-quista
Que quem via não dava na vista
Que aquilo era coisa fatalista
Criada pra matar sem deixar pista

E ao invés de pular pro abismo
Fechando tamanho cinismo
Decidiu andar com seu passo sem sorte
Sobre a estrutura tão alta, tão forte
E para o outro lado atravessar
Ver se um novo rio encontraria
Sem ponte pra fazer travessia
Com um novo caminho pra projetar.



sexta-feira, 15 de abril de 2016

AVE, CÉSAR!


Os irmãos Joel e Ethan Coen costumam apostar em uma galeria de personagens peculiares que, juntos, compõe um universo atípico. E se isso era a razão do sucesso de Um Homem Sério, por exemplo, foi também a triste ruína de E aí, Meu Irmão, Cadê Você?, que deixava soltas e perdia todas as suas boas ideias ao jamais dar-lhes uma coesão. Já Ave, César! se aproxima perigosamente do caso desse último, adotando uma estrutura similar através de um apanhado de contos de tom episódico. Porém, seguindo também mais a linha do primeiro e apontando um protagonista bem definido, o longa-metragem ganha um fio condutor mais sólido e sente-se livre para navegar, explorar e devanear nos micro-universos que, juntos, compõe, mais uma vez, um ecossistema singular concebido pelos Coen, aqui na forma de um gigantesco estúdio da era clássica de Hollywood.

quarta-feira, 6 de abril de 2016

A SENHORA DA VAN



Filmes com premissas interessantes, vez por outra, cometem o erro de achar que o conteúdo em si será suficiente para sustentar o projeto, esquecendo-se ou negando-se a fazer da forma algo tão cativante quanto. Grandes Olhos, por exemplo, dirigido por Tim Burton, cineasta destacado por sua abordagem singular, dava a uma história real e curiosa contornos aborrecidos de um drama convencional, fracassando como obra. E já dizia o sábio Roger Ebert, não importa sobre o que um filme é, mas como ele é sobre o que ele é. No caso de A Senhora da Van, existe um equilíbrio entre o comum pouco inspirado, e algumas muletas narrativas que, de forma trôpega, acabam funcionando e não deixando que o frescor da “novidade”, aquela senhorinha peculiar do título, se dilua em um projeto esquecível.

quinta-feira, 24 de março de 2016

BATMAN VS SUPERMAN - A ORIGEM DA JUSTIÇA


Tentando recriar o sucesso Disney/Marvel que resultou na franquia Os Vingadores, a Warner/DC colocou sobre os ombros dessa nova produção não apenas a responsabilidade de dar continuidade a história do Superman, mas também a de configurar o cenário para o surgimento da sua própria equipe de supers, a Liga da Justiça. Entretanto, se Zack Snyder era bem sucedido com uma trama que era focada no protagonista em O Homem de Aço, já que, apesar de ser um cineasta visualmente muito interessante, sempre demonstrou que é tematicamente imaturo e sempre dependente de roteiros que compensem essa sua clara falta de densidade, aqui em Batman vs Superman ele sede sob o peso de tantos personagens e intenções (narrativas e comerciais), cometendo em apenas um filme todos os tropeços que a Disney/Marvel pode distribuir em vários deles. Assim, embora funcione (e o saldo final é estranhamente positivo), o longa-metragem alcança isso aos trancos, fomentando e abandonando discussões interessantes, tentando encaixar e dar importância a personagens que por vezes parecem deslocados ou até perdidos em cena, enquanto ainda aposta em muletas narrativas para desenvolver figuras que, de outra forma, se estabeleceriam sem precisar delas, gerando tanta confusão que um ritmo e até mesmo o objetivo do antagonista são quase impossíveis de serem identificados.


O que não seria possível dizer com o promissor início do filme, que aproveita a trágica e famosa cena da morte do casal Wayne para servir de plano de fundo dos créditos iniciais, momento em que Snyder já demonstra seu apuro visual para criar belíssimas e orgânicas composições de quadro. Mantendo o nível, emenda-se a essa uma sequência que explora o ponto de vista de Bruce Wayne (Ben Affleck) sobre a luta do clímax em O Homem de Aço, o que serve para corrigir uma falha do longa anterior, que parecia ignorar a enorme perda de vidas humanas na apocalíptica batalha entre o General Zod (Michael Shannon) e Superman (Henry Cavill). Deste modo, o filme usa o personagem de Affleck para criar vínculos com as vítimas do incidente, e dedica boa parte do seu primeiro ato e meio a discussão do impacto do super ser em um mundo que, para ele, é como se fosse feito de papelão.

A trama então gira em torno basicamente de 3 figuras, ainda que, como discuto adiante, tente abraçar sem sucesso muitas mais. Enquanto Wayne, velho e endurecido pelo tempo de atuação como Batman, parece cada vez mais inescrupuloso com seus métodos e convencido de que aniquilar o Homem de Aço é a única forma segura de se prevenir contra futuros desastres, o próprio Superman enfrenta seus dilemas pessoais, por um lado sendo contestado publicamente pela senadora Finch (Holly Hunter) acerca da sua liberdade de ação através do julgamento próprio, e por outro, experimentando um distanciamento crescente da espécie da qual sempre quis se sentir parte, justamente, talvez, por se esforçar tanto para salvá-la. Por trás das cortinas, porém, outro excêntrico ricaço, Lex Luthor (Jesse Eisenberg), maquina para colocar esses dois guerreiros tão distintos um contra o outro, ao passo que, paralelamente, desenvolve um plano B envolvendo os restos da batalha em Metrópolis.

Já seria uma tarefa extremamente difícil desenvolver e costurar os arcos de tantos personagens, ainda assim, Chris Terrio e David S. Goyer (que já virou figura carimbada em adaptações da DC) tentam dar “tarefas” para Lois Lane (Amy Adams) e Diana Prince (Gal Gadot), que mal é introduzida e dificilmente poderia se dizer que ganha mais do que uma aparição glorificada como heroína, já que seu aprofundamento é nulo, surgindo mais como um cartaz ambulante de “Filme da Mulher Maravilha em breve!”, do que sequer como elemento da trama. Em Lane, por outro lado, é investida uma boa parcela de texto enfocando sua investigação em torno de um estranho incidente no deserto, que o tempo inteiro parece apontar para algo que todo mundo já sacou desde o início: Lex Luthor é o vilão desse filme (dãã). E chegam a ser vergonhosas as decisões de Goyer e Terrio em relação à personagem durante o clímax, quando então ela é reduzida a pessoa mais tapada do universo DC ao se livrar de um objeto importante sem razão alguma, apenas para perceber um minuto mais tarde que ele era essencial para a vitória do seu amado. Da mesma forma, os pesadelos de Bruce Wayne acrescentam um tanto desnecessário na inchada duração (151 minutos), já que Affleck faz mais do que um trabalho competente compondo o bilionário como um homem cujo olhar passou a carregar com a idade uma frieza inexpugnável, sugerindo com eficácia as suas perturbações internas e, portanto, tornando dispensável que elas fossem ilustradas em tela, o que, além de tudo, ainda quebra gravemente o ritmo do filme toda a vez.

Um sentimento que é agravado pela constante falta de foco da trama, que numa hora parece querer discutir as consequências políticas da existência do Superman, e noutra jogar pra frente a trama que vai colocar ele e Batman um contra o outro. Ainda mais adiante, se dispõe a apresentar elementos que adiantam caminho para a Liga da Justiça, e por fim, parece se interessar apenas em criar cenas de ação confusas, que assim o são por causa da fotografia escura, dos cortes rápidos e de um cenário sem referências de localização que não sejam os múltiplos focos de incêndio. Aliás, o clímax todo poderia ser considerado o maior erro do filme, e é óbvia e, por isso mesmo, patética a tentativa de Snyder e companhia de amenizarem uma nova sequência de destruições desproporcionais - que poderia caracterizar um novo gênero, o Fetichismo Catástrofe, e Roland Emmerich seria um praticante assíduo! - buscando tranquilizar o espectador através de diversos personagens que não cansam de informar que os locais destroçados pelas lutas são desabitados e logo, não resultam em vítimas para serem sentidas no próximo filme. Assim, surgem diálogos que expõe coisas como: “estão a uma altura em que uma explosão não teria casualidades”, ou “essa ilha é deserta” e ainda “o porto de Gotham é abandonado”.

Embora com tantas falhas, existem, entretanto, bons momentos nessa última parte, como a prometida luta do título, o surgimento da Mulher Maravilha em ação (sob uma trilha inspirada do sempre ótimo Hans Zimmer) e a união de três figuras improváveis contra um vilão sem precedentes – cof cof, quis dizer “sem precedentes”, com as aspas, já que Apocalipse é tudo, menos original, surgindo como um monstro concebido sem imaginação e cuja maior ameaça que oferece é ser grande e forte, um daqueles detalhes que erram por serem fiéis ao material de origem. O que encontra um contra-ponto interessante na figura de Lex Luthor, que Jesse Eisenberg afasta das versões das HQs ao conceber o vilão como um sociopata enérgico e caricatural, o que não é nenhum crime, mesmo com todas as suas muletas de atuação, mas que simplesmente diverge da visão que o próprio filme parece ter do personagem, o que pode ser notado na trilha de Zimmer, que abandona os tons melancólicos ou urgentes do resto da duração para investir em um tema mais descontraído para o algoz, o que causa uma estranheza cômica, sugerindo mais a pegada que exibira nas composições que fez para Rango, por exemplo, exemplar de animação deslocadamente divertido. Para piorar, os objetivos do antagonista jamais ficam claros. Por que ele queria colocar Batman contra o Superman? Se era para expor o Homem de Aço, por que criar Apocalipse? E se Apocalipse era a “apólice de seguro” dele contra uma retaliação de Clark Kent, como ele pretendia se livrar do monstrengo depois? Porque, do jeito que está, parece que Lex se beneficiou muito mais com seus planos dando errado do que teria se eles tivessem sido bem-sucedidos.

Então, o ponto forte acaba sendo mesmo o Bruce e o Clark de Affleck e Cavill. E quando chega o esperado embate, até mesmo Snyder parece se concentrar mais e dar atenção especial a cada plano, algo que ele parece disperso demais no resto da duração para conseguir, criando cenas de ação que raramente são compreensíveis ou interessantes de se assistir – o que é uma pena tendo em vista que já comentei sobre o apuro visual que o cineasta normalmente exibe. Porém, a tal luta é intensa, bem orquestrada e demonstra muito bem o poderio que cada uma das partes têm, e é um resultado catártico para dois arcos bastante magnéticos. As jornadas individuais dos dois heróis, aliás, são infinitamente mais imersivas do que o todo que os rodeia, já que, embora intensa, a discussão no capitólio e na mídia sobre o Superman (em referência ao Cavaleiro das Trevas de Frank Miller) se perdem quando parecem que vão engrenar, e o “plano” (de novo, existe um?) de Lex serve apenas para que o projeto concretize um acontecimento que perde todo o peso já no momento em que acontece, uma vez que sabemos que nem o filme ou o estúdio responsável por ele irão assumi-lo de fato, o que só é comprovado pelo plano final de Batman vs Superman. Uma produção que, perde tanto tempo em alguns recursos e economiza tanto em outras possibilidades promissoras que chega a ser difícil encontrar razões para citar as participações de Diane Lane, Laurence Fishburne (alívio cômico), Holly Hunter (correta) e Jeremy Irons, ainda que esse último se beneficie de sua persona para interpretar o icônico mordomo Alfred. No apanhado final, não é um filme que chateia ou incomoda, seus acertos garantem que sobreviva a análise, mas tampouco sai dela como o grande filme que quase chega a ser.



NOTA: 7/10


quinta-feira, 3 de março de 2016

KUNG-FU PANDA 3


Kung-Fu Panda 3 repete a fórmula que funcionou nos dois primeiros filmes e traz de volta Po prestes a enfrentar mais um grande guerreiro do passado (quantos podem existir?) enquanto lida com problemas do seu passado. Ou seja, o projeto não passa de um produto enlatado. Mas daí sorvete de flocos também é, e eu adoro. A verdade é que, por mais previsível e repetitivo que seja, o terceiro capítulo da franquia ainda é recheado de boas gags e um visual estonteante.

UM HOMEM ENTRE GIGANTES


Em 2002, ao fazer a autópsia de um ex-jogador de football americano, o Doutor Bennet Omalu, um nigeriano que mudara-se para os Estados Unidos em busca de melhores recursos e maiores oportunidades, descobre que o corpo apresenta um cérebro sem quaisquer indicações visíveis da causa da demência e problemas cognitivos que precederam a morte súbita do esportista. Financiando a própria pesquisa, Omalu descobriu que havia no tecido cerebral um acúmulo de proteínas similares a do Alzheimer, e mais tarde, que esse fenômeno era causado pelo impacto da cabeça dos jogadores dentro dos capacetes de football. Ao publicar o estudo, o estrangeiro foi imediatamente rechaçado pela poderosa NFL (National Football League), e passou a ser odiado por quase todos os fãs do esporte pelo mundo durante o processo de tentar provar que a instituição estava encobrindo um problema crônico que já acontecia há muito tempo, e que continua a existir ainda hoje.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

A FORÇA ESTÁ COM AS MULHERES

No começo do ano, publiquei no Papo de Cinema um texto comentando a força que tiveram no cinema de 2015 as mulheres e a sua luta por igualdade. Através de pesquisa com feministas e representantes do sexo feminino, procurei buscar a importância da representatividade para elas nas grandes mídias, e porque esses filmes significavam um grande passo para os movimentos igualitários. Foram relacionados alguns filmes e seriados de grande alcance que serviram de janelas para essa luta, e sobre cada um, me detive um pouco para comentar qual sua relevância para o assunto. Confira AQUI a matéria especial e a lista:

"Mulheres fortes em papéis de destaque na ficção não surgiram ontem e não sem muita militância. Porém, 2015 parece ter trazido uma parcela relevante de personagens femininas com algo a dizer... " 




domingo, 21 de fevereiro de 2016

APOSTAS OSCAR 2016

Então aqui estou eu mais uma vez para “soprar” as minhas apostas sobre os vencedores do Oscar. Um pouco mais confiante e cada vez mais viciado em Coca-Cola e leite condensado, chego a esta 88ª edição dos prêmios da Academia com quase todos os filmes assistidos – até o fim da semana, poderei dizer, com o peito estufado que “vi todos!”. Entre favoritos, tendências e polêmicas, consegui mais uma vez extrair uma lista de “achismos”, vindo feliz da última edição quando tive um bom número de acertos, além de ter visto uma das raras vezes em que a premiação realmente coroou o filme que eu queria ver ganhando: Birdman.

Aliás, não satisfeito com o sucesso do ano passado, Alejandro G. Iñárritu voltou esse ano e, o que é surpreedente, com grandes chances de abocanhar os principais prêmios outra vez. O que joga contra o seu O Regresso, na verdade, são dois detalhes: seria “repeteco” premiar a ele e seu filme de novo, o que não é o feitio da Academia; e segundamente, a produção não consta nas categorias de Roteiro, e o último filme a ter vencido sem ter tido seu texto indicado foi Titanic, que, convenhamos, tinha o hype a seu favor. A pergunta é, O Regresso também tem força o suficiente pra vencer?

Aí que complica as apostas desse ano. Normalmente, pra categoria principal, há um grande favorito. Dois no máximo. Porém, com os prêmios se dividindo no restante das categorias em igual importância, e os demais principais troféus da temporada também espalhados entre as produções, acabamos com três favoritos definitivos: A Grande Aposta, Spotlight: Segredos Revelados e, claro, O Regresso.

Seguem então os meus palpites que, deixando a modéstia de lado, repito, costumam ser bem certeiros. Lembrando que tudo que já escrevi sobre os filmes indicados desse ano está no post especial Oscar 2016.


MELHOR FILME:
QUEM DEVERIA GANHAR: Mad Max: Estrada da Fúria. Além de ser um filme excepcional em quase todos os aspectos, já é também um marco em seu próprio gênero, o que o faz relevante para o cinema em si, diferenciando-o dos demais indicados. O mais próximo de sua relevância e excelência seria A Grande Aposta.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
O Regresso... Ou A Grande Aposta... Ou Spotlight: Segredos Revelados... Ou O Regresso. Não dá pra apostar nos três e cantar vitória pelo que ganhar? Não? Tá, fico com O Regresso então, que venceu o DGA e o BAFTA.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Mad Max: Estrada da Fúria (suspiro de tristeza), mas não vai.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Ponte dos Espiões. Não odeio o filme e sou particularmente muito fã de Steven Spielberg, mas nem esse, nem Lincoln e muito menos Cavalo de Guerra mereciam ter ganho tanto destaque. Deveriam tê-lo premiado por Munique, aí sim teria sido muito justo.

MELHOR DIREÇÃO:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Vocês viram Mad Max: Estrada da Fúria? Então sem quaisquer dúvidas, George Miller.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Alejandro G. Iñárritu ganhou, assim como seu filme, o DGA e o BAFTA. George Miller corre por fora, e está difícil de ignorar o seu trabalho, mas Iñárritu deve ganhar.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Adam Mckay, por A Grande Aposta.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Gosto de todos os indicados, mas não ficaria especialmente feliz por Tom McCarthy, por Spotlight: Segredos Revelados, tendo em vista o trabalho de seus colegas.

MELHOR ATOR:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Leonardo DiCpario, por O Regresso. É um ator brilhante que já deveria ter sido reconhecido há um bom tempo, em especial por O Lobo de Wall Street e O Aviador. Michael Fassbender, entretanto, também está excepcional em Steve Jobs.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Leonardo DiCaprio, que pela primeira vez é o grande favorito da categoria, e com todas as piadas e o hype em volta do seu almejado Oscar, deve enfim ser reconhecido esse ano.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Não vai ter, mas Matt Damon, por Perdido em Marte. O ator também é um profissional muito competente e que já perdeu a estatueta outras vezes. Além disso, sua performance é a alma do filme pelo qual está indicado. Mas teria de passar por cima de DiCaprio e Fassbender, o que é muito improvável. Também seria uma boa surpresa se eles indicassem de última hora, tipo o Miss Universo assim, o Jacob Tremblay por O Quarto de Jack.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Bryan Cranston por Trumbo: Lista Negra. Sou fã de Cranston, e não gostaria de vê-lo vencendo por um filme que é apenas ok.

MELHOR ATRIZ:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Charlotte Rampling, por 45 Anos.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Brie Larson, que, assim como DiCaprio, devorou todos os outros prêmios até aqui. E será merecido. Apesar de alguns apontarem que ela não é a protagonista em O Quarto de Jack, sua força no filme é essencial para o funcionamento do mesmo.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Também não devem ter surpresas aqui, mas Cate Blanchett por Carol ou Saoirse Ronan por Brooklin.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Jennifer Lawrence por Joy: O Nome do Sucesso. Gosto (muito) da atriz, e mais ou menos do filme, mas ela já venceu uma vez sem merecer por O Lado Bom da Vida, e se for pra ser reconhecida de novo, que seja por um filme melhor e uma performance espetacular, que sabemos que ela é capaz de dar.

MELHOR ATOR COADJUVANTE:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Sylvester Stallone, por Creed: Nascido Para Lutar.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Sylvester Stallone.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Christian Bale, por A Grande Aposta.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Embora goste de Mark Rylance em Ponte dos Espiões, ele está ocupando o lugar de Idris Elba por Beasts of no Nation.

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Jennifer Jason Leigh, por Os Oito Odiados, que dentre as indicadas que são, de fato, ATRIZES COADJUVANTES, é a melhor disparado. Rooney Mara e Alicia Vikander são ATRIZES PROTAGONISTAS em seus filmes, e estão indicadas aqui apenas porque tem mais chances de vencer do que na categoria principal. Veja, em contraposição a Cate Blanchett, em Carol, Mara não teria a menor chance nem de ser indicada, apesar de ter sido ela a ter vencido como Atriz no Festival de Cannes pelo filme. Com Vikander acontece algo similar, ao lado de Eddie Redmayne, em A Garota Dinamarquesa, a relativamente novata perde força, e não sustentaria uma indicação a Melhor Atriz, por isso, aqui está ela também...
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Logo, pela disparidade de importância, o favoritismo fica com Rooney Mara e Alicia Vikander, sendo que essa última deve vencer. Minha aposta oficial é Vikander, mas se não for ela, será Kate Winslet quem deve levar por Steve Jobs.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Rooney Mara, que deveria ter ganho quando concorreu por Millennium: Os Homens que Não Amavam as Mulheres.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Gosto de todas as indicadas. Sim, inclusive de Rachel McAdams, por Spotlight: Segredos Relevados.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Divertida Mente. Em segundo lugar, Ex-Machina: Instinto Artificial, e em terceiro, Straight Outta Compton: A História do N.W.A..
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Spotlight: Segredos Revelados. As categorias de roteiro estão fáceis de prever, e esta é a que dá ao longa de Tom McCarthy chances de vencer como Melhor Filme. Porém, estejam alertas, embora os roteiristas de Straight Outta Compton sejam bem branquinhos, com toda a polêmica de racismo no Oscar, talvez a Academia queira dar esse prêmio pro filme, já que ele é protagonizado por negros, fala sobre o N.W.A. e sobre o racismo também. Seria o mais próximo de premiar um negro esse ano que eles conseguiriam.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Por favor, Academia, me surpreenda e entrega esse careca pra Divertida Mente.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Ponte dos Espiões... Sim, tenho consciência de que Ethan e Joel Coen são dois dos autores do roteiro. Foda-se, não merece.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO:
QUEM DEVERIA GANHAR:
A Grande Aposta ou Perdido em Marte.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
A Grande Aposta.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
O Quarto de Jack. Com a indicação do filme a Melhor Direção, dá pra perceber que a Academia gostou um pouco mais do projeto do que se esperava, então não dá pra descartar. Mas Carol e Perdido em Marte teriam prioridade aqui se não for A Grande Aposta, o que é muito difícil.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Gosto, muito, de todos os indicados.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO:
QUEM DEVERIA GANHAR:
O Abraço da Serpente, sem dúvidas!
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Filho de Saul, o Oscar mais fácil da noite.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Não vai ter surpresa, mas Guerra.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
O Lobo do Deserto, que considero muito fraco.

MELHOR LONGA DOCUMENTÁRIO:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Winter on Fire ou Cartel Land. The Look of Silence também me agrada muito, embora não seja tão impactante quanto o documentário anterior do seu diretor, O Ato de Matar.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Amy, que ganhou tudo até agora.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Qualquer um que não for Amy.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Amy, que não é terrível, mas muito mediano e, em comparação com seus colegas, quase ruim. Logo, devo mandar alguém se foder... Se quiser se candidatar, me mande um e-mail. 


MELHOR LONGA ANIMAÇÃO:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Divertida Mente. Ainda que todos os outros indicados sejam ótimos, o filme da Pixar é um caso parecido com o de Mad Max: Estrada da Fúria, e é relevante demais para ser ignorado. Anomalisa, entretanto, me deixaria igualmente feliz.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Divertida Mente.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Qualquer um que não seja Divertida Mente será uma surpresa chocante, mas sempre resta aquela centelha de esperança brasileira pelo nosso O Menino e o Mundo, que é belíssimo.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Nenhum dos indicados me desagradaria, mas seria uma grande injustiça eleger As Memórias de Marnie ou Shaun: O Carneiro, tendo Divertida Mente, Anomalisa e O Menino e o Mundo logo ali.

MELHOR FOTOGRAFIA:
QUEM DEVERIA GANHAR:
O Regresso. Eu torço pelo reconhecimento de Emmanuel Lubezki há mais de dez anos, e ainda acho uma grande injustiça que não tenha levado pelo seu trabalho primoroso em A Árvore da Vida. Entretanto, desde então, o diretor de fotografia venceu, muito merecidamente, por Gravidade, e consecutivamente no ano passado também, por Birdman. Logo, a minha intuição inicial seria votar em Roger Deakins, outro gênio da fotografia cinematográfica que, com Sicario: Terra de Ninguém, já coleciona a sua 13ª indicação. Mas não há como negar o impressionante feito de Lubezki ao (mais uma vez) realizar um filme todo em luz natural, ainda mais em um que apresenta os desafios técnicos que O Regresso traz consigo.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
O Regresso. Foge ao feitio da Academia premiar qualquer profissional que seja duas vezes, muito menos duas vezes seguidas, e é quase impensável que reconheçam uma mesma pessoa três vezes consecutivas, mas parece ser o que vai acontecer esse ano. Se não for, então, Roger Deakins será vencedor, mas minha aposta oficial é O Regresso.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Mad Max: Estrada da Fúria ou Os Oito Odiados, que Tarantino quis filmar todo em 70mm.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Todos os indicados são trabalhos excelentes.

MELHOR MONTAGEM:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Uma boa montagem quase sempre denuncia um bom filme, então, de acordo com as minhas preferências na categoria principal, não deve ser surpresa nenhuma que meus favoritos aqui sejam Mad Max: Estrada da Fúria e A Grande Aposta.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Mad Max: Estrada da Fúria. Como o filme provavelmente não vai ganhar de melhor do ano, então ele deve vencer aqui, o que, na cabeça dos votantes, é equivalente. Pelo mesmo motivo, aliás, fiquem de olho! Se o segundo favorito da categoria vencer, que é A Grande Aposta, ele é quem deve levar o Oscar de Melhor Filme.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Spotlihght: Segredos Revelados. Pelos motivos citados antes, se eles quiserem dar o Oscar de Melhor Filme para esse aqui, o filme pode vencer nessa categoria.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Todos os indicados são bons, mas por mais que goste muito de Star Wars: O Despertar da Força, a montagem de Perdido em Marte serve melhor ao seu filme, e poderia facilmente estar indicado no lugar.

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO:

QUEM DEVERIA GANHAR:
Mad Max: Estrada da Fúria. De novo: vocês viram o filme?
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Mad Max: Estrada da Fúria.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
É... O Regresso, mas se não for Mad Max não sei se seria uma surpresa tão boa.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
A Garota Dinamarquesa, que se tem alguma coisa de boa no seu design de produção, é que ele reflete “brilhantemente” a direção e o roteiro do filme, ou seja: é superficial e preguiçosa.

MELHOR FIGURINO:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Mad Max: Estrada da Fúria ou O Regresso.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
As chances apontam para Mad Max: Estrada da Fúria, mas fiquem de olho em Carol. Ambas as figurinistas já foram indicadas diversas vezes. Ambas já venceram antes. Mas apenas Sandy Powell está duplamente indicada esse ano, uma por Cinderela e outra por Carol. Como o filme de Todd Haynes não foi lembrado nas categorias de Melhor Filme e Direção, em que era esperado, e também porque não deve ganhar mais nada, aqui reside a chance da Academia de dizer “Hey, lembramos de você!”.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
A Garota Dinamarquesa, que, ao contrário do seu design de produção, tem um figurino lindo. Porém, uma surpresa ainda maior e melhor seria se tivessem lembrado do figurino exemplar de Brooklin, que além de belo, ajuda a contar a história do filme.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Nenhum dos indicados me desagrada.

MELHOR MAQUIAGEM:
QUEM DEVERIA GANHAR:
O Regresso. Com tantos closes com lentes grande-angulares, é de embasbacar que a maquiagem do filme tenha sobrevivido a tamanho escrutínio de seus pormenores.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Mad Max: Estrada da Fúria.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
O Regresso vencer, de fato.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
The 100-Year-Old Man Who Climbed Out the Window and Disappeared, que apesar de apresentar uma maquiagem de velhice convincente (uma das mais difíceis maquiagens de se fazer), não se compara com o trabalho minucioso de O Regresso ou o diverso e criativo visto em Mad Max.

MELHOR TRILHA SONORA:
QUEM DEVERIA GANHAR:
John Williams por Star Wars: O Despertar da Força, pelo saudosismo. Ennio Morricone por ser uma lenda. Jóhann Jóhannsson por Sicario: Terra de Ninguém, pela integração com a trama.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Os Oito Odiados, é a primeira trilha original de um filme de Quentin Tarantino, e trata-se de um western, gênero no qual Ennio Morricone se estabeleceu como o gênio que é. Além disso, o compositor nunca ganhou antes, o que é inaceitável, e a Academia sabe disso.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Carter Burwell por Carol. Um bom compositor que merece, um dia ou outro, ser reconhecido.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Thomas (pfff...  me poupe) Newman, que tenta imitar John Williams em Ponte dos Espiões.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Intuitivamente? Simple Song #3, não porque é a melhor, mas porque Juventude, o filme a que serve, é genial, e deveria ganhar ao menos alguma coisa.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Til It Happens to You, por The Hunting Ground. O documentário não foi indicado na sua categoria, o que deixa a Academia em débito com ele. Além disso, Lady Gaga já é uma queridinha e está na cabeça do votantes, já se apresentou na cerimônia retrasada na homenagem para A Noviça Rebelde e esteve recentemente no Super Bowl, some a isso que a música traz uma problematização social, como fazia Glory no ano passado, que venceu por Selma, e que, já premiaram um filme 007 recentemente e não devem nada a Sam Smith ou ao novo longa-metragem de James Bond, e não sobra muito espaço pros outros indicados.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Simple Song #3 ganhar, de fato.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Earned It, já que Cinquenta Tons de Cinza não merece o status de filme de Oscar, muito menos o de filme vencedor de Oscar.

MELHOR MIXAGEM DE SOM:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Mad Max: Estrada da Fúria. Deixe-me mudar um pouco a pergunta: vocês ouviram o filme?
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
O Regresso.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Star War: O Despertar da Força.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Ponte dos Espiões, que  não sei o que faz aqui no lugar de filmes como Os Oito Odiados e Sicario: Terra de Ninguém.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Sicario: Terra de Ninguém.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
O Regresso, os votantes tendem a pensar que as duas categorias de som são a mesma coisa, então quase sempre elegem o mesmo vencedor. Entretanto, talvez seja o único prêmio de Sicario: Terra de Ninguém aqui, já que não deve ganhar em Trilha ou Fotografia.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Star Wars: O Despertar da Força, principalmente pelo trabalho feito no robozinho BB-8.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Ficaria triste se não fosse um desses três.


MELHOR EFEITOS VISUAIS:
QUEM DEVERIA GANHAR:
Mad Max: Estrada da Fúria, em que os efeitos servem brilhantemente aos propósitos e ambições do filme.
QUEM VAI GANHAR NA REAL:
Star Wars: O Despertar da Força, o filme foi um sucesso gigantesco, aclamado pela crítica e o público, e não deve ganhar mais nada, então aqui reside a chance da Academia dizer “bom garoto!”. Entretanto, Mad Max: Estrada da Fúria e O Regresso correm cabeça com cabeça por fora, e já que os dois estarão disputando todos os outros prêmios técnicos, pode ser que um deles acabe levando de passada esse também.
UMA BOA SURPRESA PODE SER:
Ex-Machina: Instinto Artificial, que também merece algum (qualquer um) reconhecimento.
SE GANHAR MANDO “SE FODER!”:
Perdido em Marte, que em comparação, acaba sendo o mais fraco da categoria.

CURTAS METRAGENS:
FICÇÃO: Shok
ANIMAÇÃO: Bear Story
DOCUMENTÁRIO: Body Team 12