sábado, 26 de dezembro de 2015

OS MELHORES E OS PIORES DE 2015

2015 chegando ao fim e chegou a hora daquelas listinhas que todo mundo gosta de fazer, pra lembrar o pessoal daquilo que queríamos ter "desvisto" e aquilo que queremos ressaltar como "se não assistiram, assistam agora!". E eu, humano que sou, não poderia fazer diferente, e de hoje até o dia 31 atualizarei esse post com aquilo que classifiquei como o pior e o melhor durante o ano, sem filmes, séries e momentos:

OS 10 PIORES FILMES DE 2015:

10 - TED 2 | Seth MacFarlane deveria conversar com o seu eu de três anos atrás e pegar umas dicas.

9 - A VISITA | Pode parecer ruim estar na lista dos piores do ano, mas para M. Night Shyamalan, estar em nono é um elogio.

8 - O EXTERMINADOR DO FUTURO: GÊNESIS | Um monte de referências coladas uma nas outras e alguma empatia não fazem de um filme ação divertido. 

7 - HITMAN: A GENTE 47 | Referência e empatia nenhuma muito menos. 

6 - INVENCÍVEL | Angelina Jolie não é má diretora, assim como os irmãos Coen com certeza não são roteiristas ruins e, caralho, Roger Deakins não chega nem perto de ser um mau fotógrafo, ainda assim esse time todo conseguiu produzir um filme que seria mais honesto se fosse chamado "Esquecível". 

5 - QUARTETO FANTÁSTICO | Nem lembro mais, dizem que a amnesia seletiva é uma resposta psicológica comum quando o trauma é muito pesado.

4 - THE RIDICULOUS 6 | Ah, Netflix..., Eu te entendo, todos temos que fazer o nosso próprio acordo com o diabo.

3 - VOO 7500 | Seria legal, se tivessem se preocupado em realmente terminar o filme.

2 - ATIVIDADE PARANORMAL: DIMENSÃO FANTASMA | a.k.a. "Inatividade Cerebral: 3(D) vezes Mais Caro que os Outros 4".

1 - MINIONS | Quando um filme consegue ser irritantemente menos inteligente do que os seus personagens principais.

OS MELHORES SERIADOS DE 2015:

10 - TRUE DETECTIVE (2ª Temp.) | Subestimada, infelizmente, por se recusar a se adequar ao ritmo frenético que a geração Google exige. Um noir moderno e profundamente imersivo no universo de seus complexos personagens. Rachel McAdams <3 font="">

9 - BETTER CALL SAUL (1ª Temp.) | Quem diria que um personagem que funcionava tão bem como coadjuvante em "Breaking Bad", poderia ter uma história tão interessante quanto a de Walter White? 

8 - DEMOLIDOR (1ª Temp.) | Marvel encontrou uma bela parceira na Netflix, e abandonou aqueles formatos engessados da televisão que só sabem produzir mais do mesmo em questão de heróis. Demolidor flerta com o Noir e aproveita o novo formato de exibição para começar a deixar para trás também, a covardia temática dos filmes do Universo Marvel.

7 - JESSICA JONES (1ª Temp.) | Seguindo a linha de "Demolidor", dá uma passo a diante e realmente põe em pauta temas corajosos, atuais e relevantes, mergulhando de vez no Noir através de uma gama fascinante de personagens. 

6 - THE WALKING DEAD (5ª Temp.) | Não conta a 6ª, que começou em 2015 também, porque ela ainda não terminou, mas a quinta, que começou em 2014 e terminou esse ano, de todas as temporadas finalizadas até agora, é com certeza a melhor, de uma série que vem crescendo exponencialmente em ambição e qualidade a cada nova investida anual.   

5 - SENSE8 | Relevante e divertido projeto dos Wachowski, mostra que a Netflix está à frente da militância por temas importantes hoje, dragando seu público para o debate através de uma trama envolvente e repleta de figuras carismáticas.
  
4 - THE JINX | Chocante, apenas.

3 - FARGO (2ª Temp.) | Se a primeira temporada já refletia de maneira magistral o clima nonsense dos filmes dos irmãos Coen, essa segunda assume de vez a sua realidade estranha, cômica e brutal.
  
2 - LOUIE (5ª Temp.) | Não é a melhor das temporadas do seriado, e ainda assim merece o meu segundo lugar, preciso dizer mais?

1 - HOUSE OF CARDS (3ª Temp.) | Frank Underwood, diabólico como sempre, dando um espaço maior de tela a sua fantástica esposa, Claire. Essa temporada é um verdadeiro estudo de personagem que luta para não se tornar o arquétipo da Femme Fatale.

OS MELHORES FILMES BRASILEIROS DE 2015:

10 - O Último Cine Drive-In
9 - Sangue Azul
8 - Ausência
7 - Beira-Mar
6 - A Estrada 47
5 - Orestes
4 - Obra
3 - Olmo e a Gaivota
2 - Branco Sai, Preto Fica
1 - Que Horas Ela Volta?

(Comento sobre eles depois! Final de ano está uma correria... Mas Beira-Mar e Que Horas Ela Volta? têm crítica no blog, só clicar em cima!)

MEUS 10 MOMENTOS FAVORITOS DO CINEMA EM 2015:

10 - Velociraptor e Tiranossauro unem forças contra um inimigo em comum em JURASSIC WORLD: O MUNDO DOS DINOSSAUROS.

9 - Em STAR WARS: O DESPERTAR DA FORÇA, o sabre de luz que uma vez pertenceu a Luke Skywalker é atraído pela força para fora da neve em direção a uma mão inesperada, enquanto um dos icônicos temas de John Williams, em um arranjo mais reverente, pontua a singularidade daquele acontecimento.

8 - Furiosa ascende com os seus iguais em direção a um mundo novo e promissor, enquanto Max, o homem comum que decidiu ajudá-la, mistura-se a multidão em MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA.

7 - Alegria descobre o preço amargo de amadurecer, tendo de deixar um amigo para trás em DIVERTIDA MENTE.

5 - O personagem de Benicio del Toro empunha uma arma equipada com silenciador e diz "Chegou a hora de conhecer Deus", em SICARIO: TERRA DE NINGUÉM.

4 - Katniss "erra" o alvo em JOGOS VORAZES: A ESPERANÇA - O FINAL.

3 - Um personagem querido sobe em uma passarela sob um abismo infinito e sela seu destino chamando "Ben!" em STAR WARS: O DESPERTAR DA FORÇA.

2 - A expressão de dona Barbara ao ouvir as notícias sobre o desempenho no vestibular de Jéssica, e a comemoração rebelde de Val posteriormente em QUE HORAS ELA VOLTA?.


1 - O personagem de Michael Keaton tem uma alucinação megalomaníaca no meio da rua em BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA).

OS 20 MELHORES FILMES ESTRANGEIROS de 2015:

20 - TOMORROWLAND: UM LUGAR ONDE NADA É IMPOSSÍVEL

19 - A COLINA ESCARLATE

18 - BEASTS OF NO NATION

17 - EX- MACHINA: INSTINTO SECRETO

16 - PERDIDO EM MARTE 

15 - ENQUANTO SOMOS JOVENS

14 - EXPRESSO DO AMANHÃ

13 - MACBETH: AMBIÇÃO E GUERRA

12 - LIVRE

11 - WHIPLASH: EM BUSCA DA PERFEIÇÃO

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10 - CORRENTE DO MAL

9 - VÍCIO INERENTE

8 - O ANO MAIS VIOLENTO

7 - GOING CLEAR: SCIENTOLOGY AND THE PRISON OF BELIEF

6 - MIA MADRE

5 - SICARIO: TERRA DE NINGUÉM | http://classedecinema.blogspot.com.br/2015/11/sicario-terra-de-ninguem.html

4 - MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA

3 - STAR WARS: O DESPERTAR DA FORÇA

2 - DIVERTIDA MENTE

1 - BIRDMAN OU (A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA)

Menções Honrosas:
- Selma: A Luta Pela Igualdade
- Corações de Ferro
- A Espiã que Sabia de Menos
- Kingsman: Serviço Secreto
- Dois Dias, Uma Noite

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

007 CONTRA SPECTRE


O novo filme 007 não vai agradar grande parte do público. É solene demais, reverente demais, toma o tempo que precisa para acontecer, tem um ritmo atípico, e além disso não funciona completamente sozinho, se fazendo muito dependente dos três outros longas anteriores encabeçados por Daniel Craig. Entretanto, diria que é apenas justo que o 24° filme de uma franquia se permita esses “luxos”, ainda que eles não conversem com a maioria dos espectadores. 007 Contra Spectre é consciente da bagagem que trás consigo, e como despedida (será?) dessa fase, acaba se convertendo em uma aventura peculiar, que embora não tenha o embalo de Operação Skyfall, acaba, junto àquele belo exemplar de 2012, completando um arco nostálgico de homenagem para Bond, James Bond.

terça-feira, 3 de novembro de 2015

BEIRA-MAR



Beira-Mar conta a mais simples das histórias, sobre a mais clichê das situações desenvolvidas em filmes que abordam a diversidade sexual: a descoberta. Afinal, é quase irresistível para quem se infiltre no meio não enfocar a sedutora exploração dos primeiros passos discretos de um indivíduo em direção ao outro, enquanto ambos vão velando os seus reais sentimentos em prol de uma convivência normalmente aceita. Porém, o lugar comum do roteiro de maneira nenhuma lhe serve como demérito, uma vez que encontra na direção dos estreantes Filipe Matzembacher e Marcio Reolon uma abordagem intimista e delicada que confere uma instigante complexidade aos seus personagens.

domingo, 1 de novembro de 2015

SICARIO: TERRA DE NINGUÉM


O cineasta canadense Denis Villeneuve, surgido apenas na última década, com um pequeno, mas impressionante currículo, já se estabeleceu como sinônimo de produções densas e inteligentes. Exibindo sempre uma confiança admirável no intelecto do espectador, seus filmes raramente são óbvios ou fáceis, recheados de elementos simbólicos e também diegéticos (aqueles inseridos no universo da trama e dos quais os personagens estão cientes) que são colocados lá para que o enredo e seus significados possam ser desvendados não só pelas quase sempre inquietas figuras que os protagonizam, como também pelo público do lado de cá da tela, que não consegue evitar ficar nervoso, tamanha a tensão que o diretor consegue transmitir cada vez melhor.

domingo, 25 de outubro de 2015

ATIVIDADE PARANORMAL: DIMENSÃO FANTASMA




Iniciada de maneira independente, a franquia Atividade Paranormal em seus dois primeiros longas-metragens era um exemplo de economia e sustos elaborados, que exigiam trabalho e inteligência. E se no primeiro filme podíamos entreouvir uma discussão do casal protagonista enquanto a câmera repousava em um balcão, apontada para a parede, no segundo acompanhávamos diversas visitas aos ambientes da casa que servia de cenário, conhecendo a sua rotina noturna, só para daí sim, serem incluídos os elementos estranhos que a essa altura, por menores que fossem, já estaríamos aptos a reconhecer, nos arrepiando através do nosso próprio raciocínio, sem que isso soasse uma intenção artificial dos realizadores.

sábado, 24 de outubro de 2015

PONTE DOS ESPIÕES


Steven Spielberg está voltando. Agora, o que isso significa?

Spielberg sempre foi um cineasta extremamente emocional. Não por acaso acabou sendo mitificado - porque nem "eternizado" sintetiza suficientemente bem o peso que o seu nome passou a carregar com os anos - justamente por conseguir criar sentimentos, personagens e momentos tão intensos e marcantes que, a cada filme que fazia, parecia nascer um novo clássico – e de fato, alguns nasceram. Seu grande apelo sentimental, fosse para evocar a tensão, a empolgação, a tristeza, a comoção ou o riso, sempre lhe foi intrínseco, e prova disso é o insucesso narrativo de A.I.: Inteligência Artificial, que se por um lado funcionava na racionalidade de Stanley Kubrick (que concebeu o projeto logo antes de falecer), cedia a tentação do diretor de E.T. - O Extra Terrestre e A Lista de Schindler ao não conseguir evitar um adendo final de cunho afetivo, que praticamente arruinou todo aquele projeto. A verdade é que Spielberg é incapaz de ser pragmático ou racional como cineasta, o que não é algo ruim, o problema é que o realizador pouco a pouco deixou que suas tendências emotivas, antes poderosas propulsoras de obras memoráveis, tornarem-se descontroladas, abusivas e intrusivas, e o diretor que antes era referência em como fazer cinema, passou a ser o cara que dirigiu o enfadonho Cavalo de Guerra e o mediano Lincoln, sem controle algum do tom ou do andamento de seus filmes.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

GOOSEBUMPS: MONSTROS E ARREPIOS


Baseando-se em filmes como Jumanji e Zathura, esse Goosebumps volta a tratar de um objeto com mitologia própria que, investigado por crianças curiosas, acabam libertando de dentro dele seus personagens fantasiosos. E ainda que funcione menos do que os seus outros dois conterrâneos de gênero, o longa estrelado por Jack Black é carismático e divertido o suficiente para justificar a própria existência.

domingo, 18 de outubro de 2015

A COLINA ESCARLATE




Em certo momento de A Colina Escarlate, Edith, a jovem protagonista aspirante a escritora leva o seu romance recém escrito para ser avaliado, ao que recebe como resposta do editor um cético comentário sobre ela, uma mulher, estar escrevendo uma história de fantasmas. Incomodada com o apontamento, a garota responde: “não é uma história de fantasmas, é uma história com fantasmas”. E exatamente por isso, reclamar que "não dá sustos" o mais novo filme do sempre interessantíssimo Guillermo del Toro, é projetar uma expectativa injusta sobre o longa-metragem e também desentender completamente sobre o que ele se trata. Experiente em criar atmosferas de horror e fantasia, por toda a sua carreira del Toro se mostrou hábil ao construir climas tensos que, apesar do que alguns parecem ainda esperar do diretor, não são assim estruturados para culminarem em sustos, mas sim em catarses. Para constatar isso, basta que se relembre sua filmografia, se detendo com maior atenção em títulos como O Labirinto do Fauno e A Espinha do Diabo.


O projeto já começa com um plano esteticamente impactante: em meio a uma nevasca, a nossa heroína surge acariciando o vento com uma mão ensanguentada. O realizador, porém, só vai nos permitir conhecer o contra-plano deste take nos minutos finais da projeção, criando assim também uma rima elegante que já denuncia as suas intenções mais voltadas a um sentimento evocado, do que a sustos que se perderiam na memória. É assim que somos apresentados a Edith (Mia Wasikowska), imaginativa escritora que gosta de pensar que se parece com Mary Shelley, refutando a ideia de uma comparação com Jane Austen, por exemplo. Entretanto, é justamente em um romance mais parecido com algo que a autora de Orgulho e Preconceito escreveria no qual ela acaba se envolvendo, ao conhecer o educado e culto Thomas Sharpe (Tom Hiddleston). Sem perca de tempo, casam e mudam-se para a Inglaterra, para viverem os dois, mais a introspectiva irmã de Thomas, Lucille (Jessica Chastain), na aterradora Crimson Peak. Apelidada assim pelos vizinhos próximos, a mansão herdada pelos irmãos fora construída sobre um solo fértil em argila vermelha, que dependendo do período do ano, exala da terra deixando todo o terreno com uma terrível cor de sangue.

E se há um grande trunfo inegável no projeto, é esta estranha e elegante besta concebida pelo belíssimo design de produção. Imaginada como um ser vivo, a mansão exibe um preciosismo de detalhes apavorante – no bom sentido –, refletindo o cuidado que essa área sempre recebeu de del Toro em todos os seus projetos. Com papeis de parede que remetem a molduras vazias, marcos de madeira repletos de ameaçadores espigões e corredores de padrões repetitivos que soam eles mesmos ilustrações de ecos de um passado sombrio, a Crimson Peak é um cenário perfeitamente amedrontador, o que torna a decisão de não usar os fantasmas como óbvia e única fonte de ameaça, ainda mais acertada. Afinal, não deveríamos temê-los mais do que tememos a casa, cuja nociva beleza vai justificar as motivações dos vilões mais tarde. E é curioso perceber como a sangrenta argila parece cada vez mais presente nos cenários conforme os algozes revelam as suas intenções, não só emergindo do solo, mas escorrendo pelas paredes, pingando dos tetos até o ponto de praticamente banhar completamente o clímax.

Encabeçado com delicadeza, mas nunca sem força, por Mia Wasikowska, que é vestida com cores alegres e texturas estriadas repletas de babadinhos, que remetem a sua personalidade bondosa, o elenco ainda traz Tom Hiddleston e Jessica Chastain em uma dinâmica interessante – e quanto mais descobrimos sobre os dois, mais fascinantes e complexos os personagens se tornam. Primeiro unificados pelas roupas, sempre de cores escuras e em tecidos pesados, logo o departamento de figurino trata de diferenciá-los aos poucos. Então, taxá-los de personagens clichês e previsíveis, é outra vez não perceber as necessidades do projeto, que jamais procura esconder a natureza dissimulada e doentia dos antagonistas. Muito pelo contrário, deixa isso bem claro desde o início para poder trabalhar as suas nuances ao longo do filme. E nesse ponto, é preciso aplaudir Hiddleston que consegue criar carisma em um personagem que qualquer outro diretor não hesitaria em transformar em uma grotesca caricatura. Dono de uma carga dramática invejável, o ator carrega no olhar e na dicção uma vulnerabilidade que facilmente fragiliza o seu Thomas Sharpe, que consegue inspirar tanto o medo e a repulsa, quanto também - e essa é a parte impressionante - o carinho e a torcida do público.

Já Chastain, uma das atrizes recentemente surgidas de que mais gosto, esconde sob os seus modos apáticos uma obsessão contida. E é interessante ver como trabalha a tristeza e a frieza da personagem, que certamente nutriu sentimentos que teve de reprimir por anos, deixando-os explodir eventualmente em forma de raiva e fúria. Nada menos do que o resultado da opressão sexista imposta pela sociedade de então. E se o trio principal brilha, é uma pena que sobre tão pouco espaço para antigos colaboradores de del Toro se destacarem um pouco mais, e particularmente senti falta de uma maior presença de Charlie Hunnam na trama, que surge para fazer pouco, ainda que isso simbolize a incapacidade do mais educado dos homens contra o monstro que eles mesmos criaram ao impor um lugar a que as mulheres deveriam se reservar. Sobrando então para Burn Gorman e Jim Beaver criarem interessantes figuras que, com pouquíssimo tempo em tela, se fazem fortes e indispensáveis, um como o investigardor Holly, e o outro como o pai de Edith, Carter Cushing – talvez uma referência a Peter Cushing, o famoso ator de filmes de terror?

A Colina Escarlate então se mostra mais um projeto de Guillermo del Toro que usa o horror como comentário de uma época. Se em O Labirinto do Fauno tínhamos a perseguição aos rebeldes da Guerra Civil na Espanha, evento que por sua vez era o plano de fundo de A Espinha do Diabo, aqui o cineasta prefere tratar de um tema mais abrangente e discutir a força da mulher e seus esforços, benéficos e em ambientes hostis habitados por homens com boas e más intenções, que em nada poderão lhes ajudar a alcançar os seus objetivos. E se não por isso, ao menos o longa se mostra um conto de horror e fantasia muito bem conduzido, que deverá (a não ser que tenham enlouquecido) ser reconhecido nas principais premiações do começo do ano por seus quesitos visuais.



NOTA: 8/10


sexta-feira, 9 de outubro de 2015

A TRAVESSIA


Dono de uma filmografia eclética, Robert Zemeckis talvez não seja um nome que as pessoas lembrem de imediato. Porém, puxe um assunto sobre a trilogia De Volta Para o Futuro, comente sobre as formas sensuais de Jessica Rabbit em Uma Cilada Para Roger Rabbit, grite “Corra, Forrest, Corra!” como Jane faz em Forrest Gump, ou mesmo nomeie uma bola ou um amigo imaginário de Wilson, homenageando Náufrago, e vai perceber o quanto os filmes do cineasta estão enraizados na cultura popular.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

RICKI AND THE FLASH: DE VOLTA PARA CASA



Dirigido por Jonathan Demme, o responsável por primorosos feitos como O Silêncio dos Inocentes, Ricki and the Flash é uma diversão honesta e delicada. Escrito pela vencedora do Oscar, Diablo Cody, o roteiro conta a história de uma roqueira dos anos 1980 que, enfim, nunca saiu daquela década. Ainda dona de um estilo baseado em couro e maquiagem pesada, Ricki (Streep), como prefere ser chamada, recebe uma ligação de seu ex-marido pedindo que venha visitar sua filha, que está passando por um mau momento agora que o marido a trocou por outra. Mãe ausente de três filhos, tocando em um bar por alguns trocados junto com a sua banda, a protagonista logo se vê na pequena mansão de Pete (Kevin Kline) tendo que lidar não só com a depressão efusiva de Julie (Mamie Gummer), mas também com o ressentimento de toda a família.

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

VOCÊ IMAGINA


Um conto de Burt Bugs


"Fingir a própria morte é a primeira opção de qualquer um. Se quer descobrir o quanto as pessoas a sua volta amam você, finja sua morte. Ninguém quer morrer de verdade. As pessoas imaginam o marido se jogando em cima do caixão e chorando, os filhos dizendo como você merecia ter sido tratado melhor enquanto acariciam as mãos gélidas do seu cadáver. Você imagina e chega a desejar isso, mas não quer de fato deixar de viver. E ninguém acredita o suficiente na religião pra confiar que depois de enfiar a gilete nos pulsos ou o projétil na lateral do crânio vai poder assistir o próprio funeral como um espírito, ou lá do paraíso em uma televisão setenta polegadas ou coisa assim. Não, como protagonistas que somos, quando queremos alimentar o nosso ego em um nível mais profundo, instintivamente pensamos em nos subtrair da equação e estar lá pra ver a matemática toda colapsar. Então a primeira opção de qualquer um é fingir a própria morte.

Você se imagina num chapéu preto de abas largas caindo sobre o rosto, enfiado em um vestidinho ou em um terninho apertado muito escuro e óculos gigantes cobrindo as supostas lágrimas nos seus olhos. Com eles e um pouco de maquiagem para afinar o rosto e o nariz e pronto, você poderia ser um amigo distante, um ex-colega do colégio ou um conhecido que só veio prestar homenagem. Você chega perto do caixão fechado que tem o corpo que eles acham que é o seu e se imagina ouvindo a conversa dos seus parentes. Eles dizem que grande pessoa você era, e o quão jovem morreu. Dizem que teria dado um ótimo advogado, enquanto seus pais na outra ponta insistem entre soluços que você queria ter sido ator. Você sente pena deles e deseja que não tenham lavado as roupas sujas que deixou espalhadas pelo quarto antes de ter “capotado penhasco abaixo no seu carro novinho até deixar o corpo lá dentro irreconhecível a não ser pela associação entre a carteira de identidade meio chamuscada, a placa do veículo e o teste sanguíneo”.

Você se imagina drenando o corpo de alguém que ninguém vai dar falta. Você faz um corte no topo da cocuruto e pendura o cara ainda vivo de cabeça pra baixo até que ele fique branco como neve. Tem que agir rápido, pois os malditos legistas podem determinar com bastante precisão a hora da morte, embora você imagine que não vai sobrar muito corpo pra ser analisado quando o automóvel atingir o fim do desfiladeiro. Você se imagina tirando bastante do seu próprio sangue em uma garrafa pet e jogando a coisa melada em cima do cadáver. Você faz o carro despencar e prontinho, pode começar a imaginar o seu próprio funeral.

É bom vestir os melhores sapatos, o melhor terninho apertado, o seu melhor batom e o melhor penteado. Ninguém quer ir desarrumado ao próprio enterro. Você quer estar perfeito, mas também insípido. É um evento que só vai acontecer uma vez. Depois disso você muito bem poderia se matar de verdade, imagina que não importaria mais. Você finge morrer pra só então morrer de fato. Imagina que nessa hora teria que ser algo escondido. Se as pessoas souberem que estava vivo e morreu de novo, vão odiar você.

Então você se imagina escolhendo um matagal no litoral, desses que tem entre as dunas e as estradas, onde quase ninguém nunca passa nem perto. Você pega um ônibus até a cidadezinha mais próxima e vai a pé até lá. Você leva uma garrafa de água e um sanduíche, deus o livre cometer suicídio desidratado ou com fome. Você quer que a coisa toda saia como imaginou, e deduz que o sol do litoral vai decompor o seu corpo com rapidez suficiente pra, na altura que alguma grande construtora comprar aqueles lotes de mato pra erguer ali um condomínio cinco estrelas de veraneio, você já não seja mais do que ossos e farrapos presos neles.

Você usa um facão afiado que comprou numa ferragem na saída da cidade pra abrir caminho pelo matagal. Toma o cuidado de não deixar que nenhum carro esteja por perto antes de se enfiar no verde, e de não levar nada que associe aquele futuro monte de ossos ao seu antigo eu. Você corta mato e desvia de aranhas e escorpiões por uns três quilômetros. Reveza os braços no uso do facão e imagina que eles já estão mais inchados com o exercício do que jamais estiveram em anos de academia. Você escolhe uma pequena clareira e se dá conta de que as formigas vão ajudar no processo todo. Cada uma delas pode levantar vezes o seu próprio peso, então basta este mesmo número de vezes a menos de formigas pra dar conta de toda a pele, carne, fluídos e cartilagens apodrecendo ali. As moscas vão ajudar também. Você sorri quando imagina que seu abdômen será um berçário fervilhante de larvas.

Você e seu facão vão se sentar na terra úmida e constatar que estão sozinhos. Ninguém vai saber quem é você, quem é esse corpo aqui. Você vai ser a história de terror das crianças do condomínio de veraneio de luxo. Vai ser a assombração no espelho do banheiro delas. O objeto que vão usar pra descontar a frustração com a separação dos pais porque ele estava fodendo com o estagiário da empresa. Vai ser o desenho preocupante rabiscado com lápis de cor caros constando na ficha psiquiátrica de algum futuro caso perdido. É o preço pra poder assistir a própria morte, pra comprovar que sentirão a sua falta. Você imagina que vai valer a pena estar vivo e se sentir ótimo pra andar entre seus amigos e familiares desolados por algumas horas, em troca de uma morte dura e solitária, seguida de uma eternidade de esquecimento.

Porque você vai saber a verdade, você vai morrer sabendo o que veio depois. Você imagina que quem você realmente era morreu de fato naquele “acidente”, que este corpo não é mais você. Vai perceber, de repetente, que sua personalidade transcende o físico, e que ela era antes de qualquer coisa uma ideia formada por cada pessoa que vai lembrar de você. Juntas essas ideias vão conceber quem foi essa pessoa, do que ela gostava, o que detestava, como falava, o que comia e aonde ia. Você imagina que vai perceber que nunca teve controle sobre quem você foi. Você vai perceber que no velório as pessoas estavam chorando porque sentiam falta do invólucro onde podiam projetar a personalidade que elas imaginavam que você tinha. Vai perceber ainda mais estarrecido que elas choravam porque com a sua morte, elas tinham uma pessoa a menos a quem tentar deixar igual a elas. Você é menos uma folha em branco pra elas pintarem com as cores favoritas delas, e isso é terrível, é desolador e é profundamente triste, então elas choram.

Então você chora, triste porque não vai poder ser quem queria ser, não vai poder lutar contra aquilo com que não concordava, não vai poder continuar fazendo o que gostava e evitando o que não. Você imagina que pela primeira vez vai chorar porque morreu, e percebe que é a única pessoa realmente triste por isso.


Então você volta. Volta e finge uma história maluca. Você teve saiu de si mesmo como Walter White, você foi sequestrado como Amy Dunne. Ninguém quer ser sequestrado de verdade, mas você imagina que o suposto trauma será desculpa o suficiente pra que possa agir nos seus próprios termos, e nunca mais ninguém vai impor suas expectativas sobre você. Você imagina que vai ser livre e recomeçar do zero, ser uma pessoa totalmente nova, e que com o tempo seus amigos e familiares vão detestar esse novo você, e desejar intimamente que tivesse permanecido morto. Você reflete o ego deles e isso machuca os olhos. Agora você começa a pensar em morrer de verdade de novo, não importa que ninguém chore dessa vez, você imagina que não vai querer saber disso mais, porque descobriu uma fonte de alimento muito mais nutritiva para o seu ego. Ele mesmo. Viver feliz consigo mesmo é a última opção de qualquer um. Porque ninguém quer ser feliz de verdade."


- Burt Bugs é um personagem fictício que tem empregos fictícios tais quais operador de câmera, quadrinista, bailarino sonâmbulo e psicopata em potencial. Ele foi criado durante uma overdose de xarope pra tosse e Coca-Cola durante o inverno de 2005. Enjoy.


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

43º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO: TERCEIRO DIA


A terceira noite do festival teve duas atrações distintas. A primeira foi a usual exibição de um curta e um longa metragem, e a segunda foi a premiação da Mostra de Curtas Gaúchos.

domingo, 9 de agosto de 2015

43º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO: SEGUNDO DIA


A segunda noite da quadragésima terceira edição do Festival de Cinema de Gramado contou com uma sala muito mais cheia no Palácio dos Festivais, afinal o evento recebeu o diretor Daniel Filho e Bete Mendes, tendo sido Filho homenageado no intervalo entre as sessões. Porém, no que se trata dos filmes apresentados, houve uma maior irregularidade em relação ao dia anterior. Foram exibidos o péssimo curta-metragem Herói, o magnético longa uruguaio Zanahoria, o ótimo curta documental Muro, e o arrastado longa brasileiro Introdução à Música do Sangue.

sábado, 8 de agosto de 2015

43º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO: PRIMEIRO DIA

A primeira noite da quadragésima terceira edição do Festival de Cinema de Gramado teve como grande atração a estreia em solo nacional do longa-metragem Que Horas Ela Volta? - anunciado recentemente como fora de competição - estrelado por Regina Casé. Precedido do curta-metragem da Mostra Competitiva de Curtas Brasileiros, . E o que se mostrava uma abertura leve até então, ganhou contornos mais sombrios depois do intervalo com o curta-metragem Como São Cruéis os Pássaros da Alvorada - também fora de competição - e o longa mexicano En La Estancia – da Mostra Competitiva de Longas-Metragens Latinos.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

QUARTETO FANTÁSTICO



Tô aqui tentando lembrar de algo sobre o novo Quarteto Fantástico, e apenas consigo recordar que não é um filme tão ruim quanto qualquer uma das versões anteriores que o grupo heroico ganhou no cinema. A verdade é que esse remake é uma nulidade só, bem conduzida, é verdade, mas um vácuo enorme de qualquer forma. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

MAGIC MIKE XXL


Depois do sucesso dirigido por Steven Soderbergh em 2012, não demoraria até que a Time Warner, em busca de mais arrecadação, se lançasse em um projeto de continuação para Magic Mike. A boa notícia é que o filme é divertido e nos leva a conhecer melhor o rosto dos strippers (além de seus tórax), e a surpresa é que a revisita, apesar de não se engajar em nenhum conflito, funciona muito bem. 

quinta-feira, 23 de julho de 2015

PIXELS



Dirigido por Chris Columbus, de Esqueceram de Mim 1 e 2, de Harry Potter 1 e 2, de Os Goonies e O Homem Bicentenário, chega agora este Pixels, que depois de Percy Jackson e o Ladrão de Raios, vem comprovar que Columbus definitivamente só funciona quando guiado por um bom roteiro. O que não é exatamente o caso aqui. Entregue a piadas bobas e muitas vezes constrangedoras, Pixels se salva em parte por causa das saudosistas sequências de ação envolvendo os clássicos jogos de arcade

quarta-feira, 15 de julho de 2015

HOMEM-FORMIGA



Homem-Formiga era pra ter sido dirigido por Edgar Wright, o excelente cineasta britânico responsável pelos primorosos e ágeis Todo Mundo Quase Morto, Chumbo Grosso, Heróis da Ressaca e Scott Pilgrim – todos nota dez, senão mais. Porém, por mais que eu admire o roteirista e diretor inglês – e eu admiro, isso ficou claro, certo? Sou um pouco fã, não sei se deu pra notar – é justo dizer que seu estilo de narrativa e montagem, muito característicos (mesmo!), destoariam do resto das produções da Marvel Studios, ainda que essas também sejam calcadas principalmente no humor. Com a saída de Wright, entrou em seu lugar o incomparavelmente menos talentoso Peyton Reed, que no entanto, é hábil ao manter recursos de roteiro em que o seu antecessor teria imprimido seu estilo próprio enquanto tenta acompanhar o ritmo de uma história concebida para ser dirigida com muito mais velocidade – e estamos falando de um filme que já passa voando!

sexta-feira, 10 de julho de 2015

CIDADES DE PAPEL


Novo longa gerado a partir de um livro de John Green, Cidades de Papel é ligeiramente melhor do que A Culpa é das Estrelas – que já era bem agradável. Menos meloso do que o romance adolescente fatalista de antes, essa nova empreitada no “Greenverse” (obrigado, de nada) é mais intelectual, reflexo óbvio da personalidade do seu “casal” protagonista, e nesse caso se aproxima mais de um As Vantagens de ser Invisível – e digo “se aproxima” porque lhe falta comer ainda muito feijão pra alcançar o equilíbrio de complexidade e delicadeza daquela pequena obra-prima – do que do próprio A Culpa é das Estrelas. Talvez John Hughes até ficasse contente de ver essas obras representando as (auto)descobertas da juventude no cinema atual, se é essa a forma que o jovem encontrou de expressar a sua rebeldia em relação a percepção da própria mortalidade nos dias de hoje. Ainda sinto saudades de Ferris Bueller, mas Quentin (Nat Wolff) não é um personagem ruim também.

quarta-feira, 24 de junho de 2015

MINIONS



Se Meu Malvado Favorito funcionava regularmente era porque tinha a seu dispor pequenas figurinhas amarelas cuja graça estava baseada em gags puramente audiovisuais - trapalhadas, expressões e linguagem única. Ao concentrar mais sua trama nos ajudantes de Gru (Steve Carell), Meu Malvado Favorito 2 decaía ainda mais justamente por desentender que os pequenos seres eram alívio cômico e, portanto, eficientes em segundo plano, mas não como estrelas principais. O que nos leva ao seu filme solo, Minions, em que eventualmente algumas piadas funcionam, só que nenhuma delas tem a ver diretamente com os minions. Ao contrário do recente e divertido Os Pinguins de Madagascar que partia de uma premissa e situação parecidas, os carismáticos coadjuvantes provam que, como protagonistas, são apenas amarelos.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

JURASSIC WORLD



Jurassic Park é uma obra-prima inquestionável. Muito se valendo do frescor de ideia, Spielberg construiu um filme com cuidado minucioso, cheio de sequências icônicas e angustiantes - tamanha a tensão - possibilitadas graças a efeitos visuais pioneiros que parecem não ter envelhecido um dia sequer – e mesmo hoje, 22 anos depois, ainda há produções que não se equiparam nos quesitos técnicos. Porém, era uma trama que, devido aos próprios elementos, funcionava como um único filme, e assim suas continuações já nasceram todas fadadas a fracassarem em repetir o grandioso feito. Se O Mundo Perdido (ainda sob a batuta de Spielberg!) reciclava fórmulas que tinham funcionado no primeiro longa-metragem para criar uma aventura apenas divertidinha, Jurassic Park 3 veio para enterrar a franquia de vez. Ou era o que achávamos, até que se escavassem os fósseis daquela ideia original para conceber este Jurassic World, que não, obviamente não chega nem perto de ser o clássico que é o filme de 1993, mas que tem plena noção disso e, apesar dos problemas, se prova um filme tenso, divertido e nostalgicamente reverente.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

TOMORROWLAND




Em tempos de The Walking Dead, Jogos Vorazes e Mad Max, onde séries e filmes exploram o futuro e o presente com assumido pessimismo em relação à espécie humana – reflexo natural da disseminação de uma visão mais lógica e mais cética na cultura popular – Tomorrowland é um sopro bem-vindo de caloroso otimismo. Dirigido por Brad Bird, diretor responsável pelos excelentes O Gigante de Ferro, Os Incríveis, Ratatouille e Missão Impossível: Protocolo Fantasma, o longa-metragem é uma aventura que segue o manual sem que isso o faça soar previsível ou repetitivo. Pelo contrário, através de personagens carismáticos e uma trama que se desenrola e se explica aos poucos, consegue manter um magnetismo entre o espectador e a aconchegante aventura que apresenta. Mais do que isso: em tempos em que estamos ficando tão bons em perceber a nossa capacidade destrutiva enquanto espécie, o filme torna-se relevante no ponto que nos instiga a fazer algo a respeito – principalmente o público mais jovem – e não se acomodar e aceitar as distopias se formando a nossa volta. E se a mensagem poderia soar ingênua quando há religiosos brigando por propagandas de perfume na televisão e homens bomba matando inocentes no Oriente Médio, nas mãos de Bird ela é entregue com uma simplicidade honesta, e por isso, poderosa, mas jamais pueril.


Quando Casey (Britt Robertson) encontra um pingente que quando tocado por ela lhe revela um fantástico mundo utópico, a garota passa a ser perseguida por robôs que querem encontrar a menina que lhe deu o objeto, Athena (Raffey Cassidy). Juntas, as duas partem para encontrar Frank (George Clooney), que já esteve de verdade nesse mundo paralelo e pode levá-las lá também, mesmo contra os esforços de Nix (Hugh Laurie), homem no comando que teme o que as pessoas “comuns” poderiam fazer a Tomorrowland.

Baseado em uma das mais antigas e famosas atrações da Disney, que através de animatrônicos mostrava um futuro social e tecnologicamente ideal, o filme não esconde tratar-se de uma crítica a visão pessimista do mundo e do nosso futuro, tão difundida atualmente; e se uma sequência mostra professores em aulas diferentes apresentando cada um em sua matéria a realidade terrível em que vivemos hoje em dia, Casey não se poupa de levantar a mão e perguntar: “mas o que podemos fazer para concertar?”. Um reflexo, claro, da visão do próprio Walt Disney que é exaltada aqui através de um deslumbrante plano sequência que nos apresenta, junto a protagonista, a tal Tomorrowland. Que, aliás, é concebida através de ótimos efeitos visuais que tornam real um design de produção inteligente que aposta não só na esterilidade de um futuro impecável, como também no show de luzes e cores que insinuam o espetáculo que não seria viver naquele lugar. O mesmo design que mais tarde traz a mesma Tomorrowland com pequenas mudanças que a tornam mais sombria e menos calorosa.

A leveza estabelecida é tamanha que é possível se horrorizar quando um personagem tem por acidente a perna esmagada por um escombro. De fato, o longa-metragem de Bird é tão otimista em sua abordagem que nem mesmo chega a ter propriamente um vilão – e isso não é ruim – pois contagia tanto com a sua mensagem que quando Nix finalmente entra em cena, torcemos para que suas motivações sejam racionais e não artificialmente maléficas, e embora repreensível em sua atitude temerária, é impossível dizer que o antagonista está errado naquilo que embasa a suas decisões covardes: “vocês tem ao mesmo tempo uma epidemia de fome e de obesidade”. E seu discurso de “vilão”, que normalmente serviria para explicar um plano maligno, é substituído por um desabafo honesto e compreensível em relação ao comodismo do ser humano, o que faz de Hugh Laurie a escolha perfeita para vivê-lo com sua persona melancólica e desistente que estabeleceu com oito temporadas de House.

Um contraponto interessante que encontra na figura da Casey de Britt Robertson, que dá os ares de Jennifer Lawrence e mostra igual talento e energia, construindo uma química admirável com aquela que é o ponto alto do elenco, a jovem Raffey Cassidy, que incorpora os modos calculados de Athena sem que isso jamais a faça parecer irritante ou antipática. O que só melhora quando a dupla passa a ser um trio encabeçado por George Clooney e seu tipo rabugento, que vez ou outra ainda demonstra um velho olhar encantado proveniente do garoto curioso e proativo que era, como na fantástica cena que se passa na Torre Eiffel – divertidíssima pelo absurdo que apresenta.

Voltando a explorar temas recorrentes em sua filmografia – que certamente o fizeram ser o cineasta ideal para conduzir o projeto – tais como a relação entre homem e máquina e a capacidade de realização dos sonhadores, além de comprovar mais uma vez seu talento para cenas de ação empolgantes – ainda mais se com uma trilha de Michael Giacchino embalando-as -, Brad Bird entrega aqui um filme que se destaca por ousar incentivar, veja só, a construção de um futuro melhor do que aquele que podemos prever hoje. Que torna-se ainda mais importante por ser voltado a um público mais jovem e com a mente ainda em desenvolvimento, embora não exclusivamente a eles, funcionando perfeitamente também com os mesmos adultos rabugentos que olharão torto para essa aventura leve e colorida, mas inegavelmente eficaz em transmitir aquela centelha de humanidade que as atrocidades com as quais somos bombardeados todos os dias talvez tenham nos feito esquecer. Afinal, de que adianta tanta evolução e conhecimento se nos acomodarmos e aceitarmos os mesmos resultados que teríamos se ainda estivéssemos na Idade Média?



NOTA: 9/10 




sexta-feira, 29 de maio de 2015

TERREMOTO - FALHA EM SAN ANDREAS



Eu poderia dizer que Terremoto – Falha em San Andreas é um filme problemático, mas acontece que o seu problema é um só: o roteiro incrivelmente obtuso e clichê. Mas clichê mesmo! Em certo momento me peguei citando as falas dos personagens antes mesmo que eles abrissem a boca para dizê-las, e sabia exatamente como se desenrolaria cenas como a que se passa em uma represa, como se tivesse assistido ao longa centenas de vezes antes. Na verdade, é tudo tão obviamente orquestrado e artificial no texto que, se o filme não se levasse tão a sério – o que infelizmente ele faz -, seria uma comédia de ação autocrítica muito mais divertida do que é enquanto exemplar de ação dramáti... Ah, me poupe.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

MAD MAX: ESTRADA DA FÚRIA



Bons filmes de ação são como bons musicais em que os números de canto e dança dão lugar às insanas cenas de ação coreografadas com impressionante maestria por George Miller. Não fosse o suficiente, o longa-metragem ainda traz um universo onde é normal o vilão ter em seu comboio um carro portando uma banda de heavy metal para que as suas perseguições tenham a própria trilha sonora do mal. Mas aviso: se você espera encontrar aqui mais um produto nos moldes Michael Bay, com explosões gratuitas, mulheres servindo como objeto de distração para a plateia masculina e heróis machos alfas que andam de costas para as explosões e transam com quem querem, você, misógino que só quer ver ação e violência injustificadas, cuidado, é uma armadilha! Desse ponto de vista, o novo Mad Max de Goerge Miller (mesmo diretor dos três anteriores, que não precisam serem vistos para entender esse) é, muito além de um filme de ação pra entrar na História, o portador de uma mensagem poderosa e relevante.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

VINGADORES: ERA DE ULTRON




Em comparação com o divertidíssimo primeiro filme, é notável que Vingadores: Era de Ultron tenta ser muito mais sombrio. Porém, recusando-se a abandonar o bom humor de antes, encontra problemas em conciliar os dois tons, e não raramente um momento mais sério é imediatamente contraposto com alguma gag, e vice-versa, o que acaba tirando a força desses momentos. Joss Whedon, que volta ao posto de diretor, explora tudo o que funcionou antes e inegavelmente cria uma longa-metragem que é, sim, divertido como era o primeiro, mas que perde um pouco na novidade, e os pontos a mais ficam por conta do tempo que investe em personagens antes secundários demais para merecerem maior desenvolvimento.

O primeiro ponto é o vilão do título, Ultron (voz e captação de movimentos de James Spader), que diferentemente do Loki de Tom Hiddleston não possui nenhum carisma pré-estabelecido com o público. O robô criado por Tony Stark (Robert Downey Jr.) é dono de uma inteligência artificial e é apresentado com pressa, não demorando mais do que meia cena para chegar à conclusão óbvia de que ele é o antagonista do filme e tem que destruir os Vingadores porque [insira aqui qualquer motivo]. A verdade é que Ultron não possui melhores motivos do que Loki possuía (a Terra tem que ser destruída porque mesmo?) e na verdade repete sua fórmula até no bom humor – principalmente levando em conta que é um robô – e no narcisismo.

Uma vez que temos Ultron estabelecido, o filme para com os fan services – cena de luta inicial com todos os Vingadores, torrentes de piadinhas entre o Homem de Ferro e o Capitão América, pontas de vários personagens dos filmes solos dos heróis e a aparição já sempre esperada de Stan Lee – e começa a andar de verdade. Com o vilão contando com a ajuda de duas figuras dotadas de dons especiais, os gêmeos Pietro e Wanda Maximoff (Aaron Taylor-Johnson e Elizabeth Olsen), o plano é criar um desastre para destruir a Terra enquanto acaba com a credibilidade e a união do grupo de heróis protagonistas.

Tudo se torna uma grande salada de frutas que parece mais preocupada em deixar o terreno preparado para filmes como o próximo Capitão América, que deve trazer a adaptação de Guerra Civil, uma famosa saga dos quadrinhos que envolve todos os Vingadores e um embate entre o Capitão América e o Homem de Ferro. O roteiro é mais truncado e menos fluído do que antes, não por acaso a duração de Era de Ultron é menor do que a de Vingadores e esse aqui soa muito mais longo. Ver o super-time se reunindo pela primeira vez tinha o seu frescor, agora a força está na individualidade, algo que não escapa ao todo de Whedon, que desenvolve um pouco mais personagens como Clint Barton (Jeremy Renner) e Natasha (Scarlett Johansson). O que faz mesmo falta é a trilha de Alan Silvestri, que é aqui é substituído por um apático e pouco presente Danny Elfman, que simplesmente não tem a mão para a dar a grandiosidade que o filme pedia. É um feito então que ainda assim, graças em parte à química e ao carisma de seu elenco, que o filme funcione de fato, apesar de um clímax esticado e repetitivo demais. 


NOTA: 7/10


sexta-feira, 27 de março de 2015

ANSIEDADE - A OFICINA DO DIABO



Deixa eu contar uma coisa sobre ser ansioso: as pessoas não entendem. Grampear as próprias bolas sempre parece uma ideia menos dolorosa do que ouvir um “eu vejo depois” ou um “tenho que pensar”.

Ser ansioso te faz exigente.
Ser ansioso te faz chato.
Ser ansioso te faz impaciente.
Ser ansioso também pode te fazer eficiente, mas não há garantias.
Mas antes de tudo, ser ansioso te faz hipócrita.

Quer dizer, não sei bem ao certo sobre essa última parte, muita coisa na cabeça agora, eu vejo depois, tenho que pensar.

Deus não existe se você é ansioso. Ao menos agora não faz diferença se existe ou não. Digo, o cara trabalha a ritmo de milênios, e eu contando os minutos aqui. Quando se é ansioso nada que não faça diferença agora – neste momento – importa. Foda-se Deus. É, ser ansioso te faz um pouco egocêntrico também.

Você começa a pensar que as pessoas não deveriam poder ter sentimentos, só pelo fato de não serem pragmáticas o suficiente para usá-los. Cada vez que ouço um “não sei” me faz preferir ser a alma condenada de algum motorista alcoólatra de ônibus escolar responsável pela morte de quarenta criancinhas, egolindo abacaxis inteiros e com casca e retirando-os intactos pelo rabo como castigo eterno. O inferno é as pessoas não poderem simplesmente serem objetivas. Por que não podem me ouvir e obedecer?

Eu sei, eu sei. Ser ansioso também te faz um babaca controlador. Eu não tô negando isso.

Romie sempre diz que eu deveria viver em um planeta povoado por um monte de eus. Segundo ele, eu seria mais feliz com uma população que também pudesse sentir a 120km/h. A ideia sempre me faz rir – três segundos por dentro, outros trinta por fora, só pelas aparências – mas Romie está errado. O que ele não sabe é que ser ansioso te faz bastante egoísta, e encontrar apenas um outro eu por aí já seria arrepiante o suficiente sem eu ter de pensar na ideia de encontrar milhares. Seria uma carnificina.

Ou eu também posso estar sendo precipitado – não disse ainda, mas ser ansioso te faz um paranoico talentoso – e no fim, ao invés de uma matança, haveria era uma orgia de escala global. Talvez sim, depois disso começaríamos a nos matar uns aos outros. Porque isso é outra coisa que não dizem sobre ser ansioso: nós gostamos de sexo. Somos primatas obcecados com a perpetuação da espécie, sempre em busca da próxima foda.

Sinceramente, tenho a impressão de que o primeiro telégrafo criou o primeiro ansioso. Pense bem, como vivia um ansioso na época do império? Se eu mando uma mensagem no whatsapp hoje, quero vê-la respondida tão logo a pessoa a leia, e minha paciência não tolera que isso demore mais do que algumas horas, porque, se alguém tem um whatsapp deve checar a droga do celular pelo menos uma vez por hora. É a obrigação moral dela com a modernidade. Agora imagine, e imagine você, porque toda a vez que eu tento imaginar é um pesadelo desesperador: um ansioso manda uma carta para a sua pretendida do outro lado do oceano perguntando se ela deixaria a residência dos pais e viria passar um tempo em terras americanas para ver o que acha da vida na colônia. O que seria o equivalente hoje a um “que tal sairmos na sexta?”. O que um ansioso faria da vida sabendo que a carta que ele acabou entregar ao mensageiro, levará semanas para alcançar o seu destinatário? Pior, sabendo que não há garantia alguma de que chegará de fato; o navio pode afundar, o mensageiro pode morrer, a carta pode se perder. Isso sem contar a resposta, e se a resposta não for a esperada? E se ele precisar argumentar? E mesmo que não precise, semanas é tempo o suficiente para que a moça conheça algum outro pretendente, e isso mesmo que vivesse no estado vizinho. Caralho, naquela época semanas era tempo o suficiente para que ao tempo em que a carta chegasse a moça já estivesse casada!

Quase não consigo dormir à noite pensando em como poderia ser pior. Quando Romie não responde alguma mensagem minha começo a pensar que estranho acidente envolvendo um carro, uma banca de frutas ou fios desencapados poderia tê-lo matado. Ligo pra mamãe que trabalha em frente à ele, pergunto se o viu, ela diz “sim”, eu adiciono: “vivo?”. Ela ri, eu me irrito, desligo. Saio, ligo pra ele, não atende, deve estar agonizando sem ninguém pra ajudá-lo. Mas por que? Romie é um vendedor, por que uma gangue de skatistas iria querê-lo morto? Ah sim, nesse meio tempo de alguma forma já deduzi que foram skatistas que o atacaram, com facas dessas grandes de caça que se compra em lojas de caça... Talvez o pai de um deles seja dono de uma loja de artigos de caça, o que explicaria o motivo de o terem esfaqueado, essa gente metida a red neck brasileiro deve ter uma bandeira do partido conservador pendurada atrás do balcão, não surpreenderia que a gangue do filho de um deles atacassem Romie. Eu tinha que chegar logo, antes que cortassem as bolas dele e enfiassem na boca do seu cadáver, não porque isso seria terrível – e seria -  mas porque se Romie estivesse vivo para julgar a própria morte ele ficaria puto por ter morrido assim. Tenho certeza de que ele gostaria de morrer do coração nos meus braços ou algo do gênero, e isso logo depois de oferecer uma performance estonteante de alguma música do RuPaul para uma plateia em alvoroço de excitação, algo no estilo Satine de morrer.

No final, Romie está conversando com o seu chefe e não pode sacar o celular. Nada de gangues de skatistas filhos de red necks donos de lojas de caça. Não. Pelo menos ser ansioso faz a sua vida parecer que vai se converter em um thriller de ação a qualquer momento.

Eu converso com Romie e tudo fica bem. A música do ABBA já dizia não é? There’s no hurry anymore when all is Said and done”. Bom, foda-se o ABBA também – por algum motivo estranho, ser ansioso te faz um crítico ferrenho de música brega – sempre há o que ser dito e feito. Eu acabo de conversar com o Romie e já há mais uns vinte itens que eu preciso ter certeza de que ficou claro pra ele. O mundo moderno foi projetado para acomodar os ansiosos, mas ainda é habitado massivamente por pessoas comuns que não se dinamizaram o suficiente, que nem mesmo planejam em detalhes o dia seguinte - quero dizer, como elas conseguem dormir sem decidir a cueca que vão usar quando acordarem? Se Jesus tivesse vindo nos dias de hoje e feito o sermão da montanha por streaming no YouTube, ele diria algo como: “bem aventurado os ansiosos, pois herdarão a Terra”. Não que seja alguma surpresa pra você, mas estou ansioso por esse dia. Abaixo os "vamos ver", nunca mais às "pensadinhas" e morte aos "eu acho"!

É, ser ansioso te faz dogmático e um pouco fascista também.

Eu vivo neste mundo há algum tempo agora, e ser ansioso te faz desesperado ao pensar que ainda há, pelas expectativas, mais do que o dobro desse tempo ainda por vir. As pessoas dizem que a vida é curta, os religiosos dizem isso, até os cientistas concordam com eles nisso. Cacete, se religiosos e cientistas podem concordar em alguma coisa sobre a vida, como que nós ansiosos podemos encontrar um lugar entre vocês? Porque, deixa eu te contar, a vida é longa. É malditamente arrastada. Romie vai me dizer até terça se iremos viajar na sexta, e ele vai viver feliz até lá. Eu invejo o filho da mãe com uma força que vem do núcleo dos meus ossos. Porque nesse meio tempo eu vou viver como se estivesse na página principal do meu Facebook e não conseguisse desfazer o símbolo vermelho de notificação no canto da página. Tudo azul, exceto pela maldita resposta de Romie. E até que ela venha, pra mim, vai se passar toda uma vida.

A ansiedade é uma grandeza física, ela faz o tempo relativo para quem está mais próximo dela. E os azarados que inventam de nascer com a maldita dentro do peito, batendo junto com o seu coração, vivem essa vida amaldiçoada. Desejando sempre apenas poder transmitir todo o desespero e agonia que sentem para a próxima pessoa, apenas com um toque, só para poder ser compreendido.

Ser ansioso te faz agir como um vírus. Você quer disseminar-se para sobreviver. A sociedade é o seu hospedeiro, e você precisa garantir que ela fique viva para sustentá-lo, mas ela vai tentar expulsá-lo, colocá-lo no seu lugar, mantê-lo sob controle ao menos. Quando religiosos e cientistas concordam, é quando glóbulos vermelhos e brancos se unem. Que seja. Eu sou um vírus. Ser ansioso te faz o vilão, e um tanto pessimista.

Você nunca é feliz por mais do que alguns instantes, porque sempre fica afoito pelo próximo momento em que você vai se sentir feliz, e agoniado de pensar que ele talvez não chegue. A sinaleira é muito demorada, a música que você adora poderia ter versos a menos, o livro ser mais curto, o filme menos subjetivo, os petiscos podiam ser pulados nos churrascos de domingo, a vida podia ter menos graça. Quando se é ansioso você vive para o próximo momento em que vai ver você mesmo falhar em aproveitar os pequenos momentos.

Você traça objetivos que parecem impossíveis. Você os alcança. Então quer alcançar o próximo horizonte, sempre correndo atrás do sol, tentando alcançá-lo antes que ele se ponha.


Quando se é ansioso, você sempre quer mais, e desconhece o significado de “demais”.

Deixa eu te contar uma última coisa sobre ser ansioso: nós não entendemos as pessoas.

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CINDERELA


Não há nada de novo nesta versão dirigida por Kenneth Branagh da gata borralheira. Nenhuma revisão moderna do conto ou da animação original da Disney. O roteiro não ousa e, portanto, não surpreende. Porém, dentro de sua condução extremamente correta, Cinderela agrada principalmente por representar uma revisita tecnicamente impecável a história da moça do sapatinho de cristal.

Óbvio, o roteiro de Chris Weitz também não ignora os tempos em que vivemos, e ao convocarem a donzela misteriosa para comparecer ao castelo, os guardas anunciam ao povo “...onde, se quiser, ela deverá se casar com o príncipe”. Assim como a mensagem final tem mais haver com aceitação da mulher como ele é, sem a maquiagem (literal e social), do que realmente com um sapatinho se encaixar ou não no pé de alguém. A vilã ser uma mulher também não ajudaria muito, mas Cate Blanchet tira a carapuça de carrasco conservador da Lady Tremaine do desenho e impõe uma que tem mais relação com suas própria vaidades e ambições, condenando a personagem e não um tipo.

Aliás, Blanchet é um dos dois grandes acertos de Cinderela; divertidamente má, a antagonista admite, sem deixar de esboçar um sorriso no rosto, um “sim”, quando lhe perguntam se ela está fazendo uma ameaça. Se a atriz tem uma queda para o over quando se trata de drama, é inegável que também não se iniba muito quando tem a liberdade de ser caricata, vide a sua Irina Spalko em Indiana Jones. Branagh, que normalmente tem um estilo marcante, aqui apenas uma vez torce o seu ângulo de filmagem, mantendo-se imperceptível atrás das câmeras no restante do tempo, enquanto outros antigos colaboradores seus fazem suas participações aqui e ali, como Helena Bonham Carter (esteve em Frankenstein de Mary Shelley, do diretor), Stellan Skarsgård (em Thor) e o compositor Patrick Doyle (em vários filme dele).

O segundo triunfo do longa-metragem, claro, é o design de produção, assinado por ninguém mais ninguém menos do que Dante Ferretti – três vezes vencedor merecido do Oscar na categoria – que estonteia com a grandiosidade e beleza de suas criações, do salão de festas até o sótão onde vive a protagonista, passando pela carruagem dourada. Se não estivéssemos recém no começo do ano, Ferretti seria a minha aposta para as principais premiações.


NOTA: 8/10