quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

APOSTAS OSCAR 2018


*Em vermelho estão as minhas apostas oficiais em catada categoria.

Dos filmes indicados, escrevi críticas destes:


MELHOR FILME:
QUEM DEVERIA GANHAR: Eita, esse ano a coisa tá complicada, como escolher entre Me Chame Pelo seu Nome, A Forma da Água e Trama Fantasma? E se a disputa for entre Dunkirk, Corra! e Três Anúncios para um Crime, só piora. E nem tô querendo esquentar minha cabeça escolhendo entre Lady Bird e The Post. Então eu já vou começar trapaceando, vou escolher um filme que não está na lista: Projeto Flórida. Na real eu queria votar em Mãe!, mas o filme do Darren Aronofsky é demasiado polêmico e nunca teve realmente chance nenhuma de ser sequer indicado, então vou pegar essa coisa linda que o Sean Baker realizou e enaltecer um pouco.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Fazia tempo que o principal troféu da noite não ficava tão imprevisível, e a real é que mais da metade dos indicados aqui têm uma boa chance de levar a estatueta. Guillermo del Toro deve ganhar o careca de Melhor Direção, o que faz de A Forma da Água um favorito virtual, mas Três Anúncios para um Crime tem um currículo melhor na temporada com as categorias de Melhor Filme. Quem se beneficia desse dilema é Corra! e Dunkirk, que estão na espreita. Mas vou acreditar na inércia daqueles que já vão votar no del Toro e minha aposta oficial aqui vai ser A Forma da Água - que além de tudo, foi campeão do troféu do Sindicato dos Produtores.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Se a votação ficar muito polarizada, quem deve se destacar é Corra!, que está correndo por fora (não foi um trocadilho, eu juro)(tá ok, foi sim, desculpa). Pessoalmente, ficaria encantado de ver um filme de terror independente sobre racismo, escrito, dirigido e protagonizado por artistas negros ganhando todo esse destaque - sem as distrações de prêmio errado pra La La Land como no ano passado. Mas não dá pra esquecer que Dunkirk tem o apelo de Nolan (historicamente injustiçado na cerimônia) e uma das alcunhas favoritas dos votantes: “filme de Segunda Guerra”. Então fiquem de olho nesse também.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Ah, olha, eu não desgosto de nenhum dos indicados desta edição, não mandaria ninguém se foder não. Mas, apenas pela comparação com seus concorrentes, ia dar aquela torcida de nariz se O Destino de uma Nação saísse campeão aqui.

MELHOR DIREÇÃO:
QUEM DEVERIA GANHAR: Meu voto racional seria em Paul Thomas Anderson (Trama Fantasma), não só porque é um ABSURDO que ele nunca tenha ganho (o cara lança uma obra-prima atrás da outra, e não adianta dizer “Ei, Paul, será que não rola de fazer um filmeco aí? Só pra não pegar mal pro resto da gurizada? Óh aqui o Adam Sandler óh, faz um filme com ele...PORRA PAUL!!! Que merd@ é essa de Embriagado de Amor!? É um puta filme bom da porra cacete, comé que tu fez o Adam Sandler A-T-U-A-R caralha, cê tá de brincadeira era pra pegar leve seu BOST**!”) - só para fins jurídicos, esse diálogo jamais aconteceu de verdade… Eu não falo assim com o Paul. ANYWAY. Mas meu coração ia querer votar no Guillermo del Toro (A Forma da Água). Dividido entre os dois, eu escolho o Christopher Nolan, porque digam o que quiserem de Dunkirk, mas a direção do filme, inegavelmente, é alma de tudo o que ele alcança.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Guillermo del Toro, por A Forma da Água - venceu tudo até aqui, inclusive o troféu do Sindicato dos Diretores.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Nolan tá de suplente desse aqui. Logo que Dunkirk foi lançado, muito se falou que Melhor Direção já tinha dono este ano, mas isso foi há meses atrás e o cineasta acabou perdendo um pouco o momentum, mas se o filme chegou com essa força toda nas indicações, é porque Christopher ainda tem um dedo firme nesse Oscar.
SE GANHAR É MEIO MEH: Eu gosto do trabalho de todos os indicados. Entretanto, eu não acho que o forte de Corra! ou de Lady Bird seja as respectivas direções do Jordan Peele e da Greta Gerwig - que mandam muito melhor como roteiristas de seus filmes.

MELHOR ATRIZ:
QUEM DEVERIA GANHAR: Sally Hawkins, por seu talento de me deixar apaixonado por suas personagens - mas se justiça fosse feita, a vencedora inconteste seria a pequena Brooklynn Prince, por Projeto Flórida.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Frances McDormand, por Três Anúncios Para um Crime. Ela já tem um Oscar por Fargo, aliás - e realmente merece outro.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Qualquer uma das outras indicadas, mas ficaria especialmente feliz por Saoirse Ronan (Lady Bird).

MELHOR ATRIZ COADJUVANTE:
QUEM DEVERIA GANHAR: Lesley Manville, que me deu medo em Trama Fantasma.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Allison Janney, por Eu, Tônia. É uma veterana da coadjuvação e ganhou tudo até agora.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Laurie Metcalf conquistou um carinho especial do público em Lady Bird, e o filme chegou a ser o mais bem avaliado na história do Rotten Tomatoes - além do que, a Academia pode não querer deixar o filme sair de mãos vazias.
SE GANHAR VOU REVIRAR OS OLHOS, MAS COM UM SORRISINHO NO ROSTO: Eu gosto da Octavia Spencer, apesar de ela fazer basicamente a mesma coisa em quase todos os seus filmes. Aliás, é bem por isso que eu não acho merecido que ela tenha ganho por Histórias Cruzadas (que além de tudo, é um filme problemático pakas). Tinham era que dar um Oscar pra essa mulher quando ela fizer algo como em Fruitvale Station outra vez.

MELHOR ATOR:
QUEM DEVERIA GANHAR: Meu primeiro impulso é dizer Daniel Day-Lewis, transformado e perturbador em Trama Fantasma - até porque é, supostamente, o último papel do ator. Porém, Day-Lewis já tem 3 Oscars e uma carreira sólida (tanto é que vai se aposentar), já o trabalho de Daniel Kaluuya em Corra!, tão sutil e contido, além de ser a força do filme, pode abrir portas para um artista promissor - o que seria facilitado por esse reconhecimento.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Gary Oldman, por O Destino de uma Nação. Oldman é um dos atores veteranos mais aclamados da atualidade e nunca venceu nada, além de ter sido indicado apenas UMA única vez antes, o que é um absurdo, tendo em vista seu currículo. Além disso, a Academia se derrete por atores que passam por grandes mudanças físicas e desaparecem num personagem, de preferência histórico e que tenha ajudado o mundo a enfrentar uma crise - nem mesmo as acusações de agressão de anos atrás (pelas quais foi absolvido) respingaram no seu favoritismo.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Timothée Chalamet, de Me Chame Pelo seu Nome, seria a segunda opção aqui, e caso Oldman seja rebatido, ele leva essa fácil. Porém, é preciso admitir que a Academia não gosta de premiar atores (homens) que sejam muito jovens, o mais novinho que já angariou um boneco desses foi o Adrien Brody, que tinha 29 anos quando venceu nessa categoria por O Pianista.  

MELHOR ATOR COADJUVANTE:
QUEM DEVERIA GANHAR: Willem Dafoe, por Projeto Flórida. É isso.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Sam Rockwell, por Três Anúncios Para um Crime. Esse é um que está há algum tempo pra receber o devido reconhecimento e nunca ganha uma chance - que deve ser essa. O estranho é que o filme sofreu o repúdio de parte do público justamente por causa do personagem de Rockwell, que é racista - muita gente entendeu que o filme estava passando a mão na cabeça do cara, obviamente desentendendo o projeto inteiro.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Poxa, Woody Harrelson, por Três Anúncios. Esse sim está sendo injustiçado há anos. Mas o segundo favorito é Willem Dafoe, então, por mais que eu goste do Sam Rockwell, espero errar essa aposta.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Agora, verdade seja dita: se Michael Stuhlbarg não vencer por seu monólogo em Me Chame Pelo seu Nome, tem que todo mundo ir à merda mesmo. Mas né, esse atorzão da porra (um dos melhores atualmente trabalhando em Hollywood) não está SEQUER indicado, portanto, fiquem avisados, vou mandar alguém se foder aqui.

MELHOR ROTEIRO ORIGINAL:
QUEM DEVERIA GANHAR: Eu quero dizer Corra!, mas talvez aqui eu prefira (só um tantinho a mais) o texto de Greta Gerwig para Lady Bird.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Corra!, que venceu o prêmio do Sindicato dos Roteiristas. Além disso, é um filme que estreou no começo do ano passado e teve fôlego até agora, então a Academia não deve deixar o projeto sair de mãos vazias, até pelo teor político da obra.
UMA BOA SURPRESA SERIA: A Forma da Água, pela criatividade de Guillermo del Toro, mas o spoiler aqui é Greta Gerwig mesmo.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Não sou particularmente fã de Doentes de Amor.

MELHOR ROTEIRO ADAPTADO:
QUEM DEVERIA GANHAR: Logan. Primeiro que é um filmaço, segundo que: filme de super-herói ganhando numa categoria dessas que “se levam mais a sério” seria algo histórico - e saudável para a Academia perder um pouco do preconceito com os “filme pipoca”.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Me Chame Pelo seu Nome, que esteve em alta na temporada dos festivais e chegou a ser cotado como o favorito a Melhor Filme - e também venceu no Sindicato. Infelizmente perdeu o momentum, foi atropelado por Três Anúncios e A Forma da Água, e aqui está sua chance de sair com pelo menos uma estatueta.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Mudbound merecia mais destaque do que ganhou, eu ficaria feliz de ver o azarão sair premiado aqui - até porque martela pautas desconfortáveis, favorecendo paralelamente o momentum popular de obras que dividem essas temáticas, como Corra! e Pantera Negra.
SE GANHAR NÃO VAI SER TÃO MERECIDO: A Grande Jogada é divertido e ágil, como um bom roteiro de Aaron Sorkin deve ser, mas não é o melhor trabalho do autor.

MELHOR LONGA DOCUMENTÁRIO:
QUEM DEVERIA GANHAR: Visages Villages (ou, o título em inglês, Faces Places), porque é Agnès Varda.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Visages Villages (Faces Places), porque é Agnès Varda.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Eu gosto muito de Ícaro, mas se tiver surpresa aqui, ela deve ficar a cargo de Últimos Homens em Aleppo, que dá à Academia sua chance anual de reconhecer as atrocidades que rolam no Oriente Médio.

MELHOR FILME ESTRANGEIRO:
QUEM DEVERIA GANHAR: Há, pelo menos, 3 grandes filmes aqui, todos incrivelmente diferentes entre si: Corpo e Alma (Hungria), Uma Mulher Fantástica (Chile) e The Square (Suécia).
QUEM VAI GANHAR NA REAL: The Square seria o favorito, até porque ele tem o aval da Palma de Ouro que angariou no Festival de Cannes. Mas Uma Mulher Fantástica tem o peso político a seu favor, com uma atriz transexual à frente do elenco, e Daniela Vega chegou seriamente a ser cotada para ser uma das finalistas na categoria Melhor Atriz. Além disso, Vega vai subir ao palco e apresentar um dos prêmios da noite, o que além de fazer dela a primeira transexual a protagonizar um momento desses na história do Oscar, também significa que o candidato chileno ainda tem bastante força. Claro, essas polarizações acabam favorecendo aqueles que correm por fora, e aqui esse candidato é o russo Sem Amor, do mesmo diretor de Leviatã, que foi indicado em 2015. Mas minha aposta oficial é The Square.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Poxa, se eu errar e Uma Mulher Fantástica sair campeão.
SE GANHAR MANDO UM BEIJO: Todos os indicados são excelentes, mesmo que eu ache O Insulto e Sem Amor só um tantinho abaixo dos outros três.

MELHOR LONGA DE ANIMAÇÃO:
QUEM DEVERIA GANHAR: Viva.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Viva.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Com Amor, Van Gogh, que tá de reserva. O filme conquistou a admiração do público e da crítica com sua técnica preciosista de pintar à mão todos os quadros do longa no estilo das telas do lendário pintor - além do que, Van Gogh tem uma trajetória fascinante e trágica capaz de comover qualquer um.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Que tristeza seria ver esses títulos excepcionais perdendo pra O Poderoso Chefinho.

MELHOR FOTOGRAFIA:
QUEM DEVERIA GANHAR: Roger Deakins, por Blade Runner 2049.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Esta é a 14ª indicação de Roger Deakins, provavelmente o melhor diretor de fotografia do cinema atual (sem exageros), e o cara acumula um total de ZERO vitórias no Oscar. Ele já virou o Leonardo DiCaprio dos DF’s. Blade Runner 2049 foi um sucesso de crítica, mas um fracasso de público, e a Academia se penalizou do projeto e o acolheu em diversas categorias, mas em nenhuma das mais visadas. Muito provavelmente é aqui que o filme e Deakins enfim vão ganhar um afago merecido.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Dan Laustsen, de A Forma da Água, que tá no cangote de Deakins, e o favoritismo do projeto do del Toro, teoricamente, dá uma vantagem pra ele. Mas, se as coisas lá pra frente penderem pro lado do Nolan, quem faz forte concorrência com Deakins é, na verdade, Hoyte Van Hoytema, que atendeu as demandas megalomaníacas do cineasta e filmou as impressionantes tomadas aéreas de Dunkirk com as enormes câmeras Imax presas em aviõezinhos da Segunda-Guerra.
SE GANHAR VAI SER FODA PRA CACETA: Apesar dos méritos e injustiças históricas dos outros indicados, Rachel Morrison representa aqui a PRIMEIRA mulher nomeada nesta categoria em 90 anos de Oscar, e seu trabalho em Mudbound é realmente lindo.  

MELHOR MONTAGEM:
QUEM DEVERIA GANHAR: Em Ritmo de Fuga...
- Por quê?
Vocês viram Em Ritmo de Fuga!?
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Minha aposta é Dunkirk, já que não deve levar de Melhor Filme e o prêmio de Montagem costuma ser usado pra equilibrar as coisas. Além disso a montagem do filme realmente chama atenção para si mesma (e venceu o prêmio do Sindicato dos Montadores), e o projeto em si deve agradar mais o gosto da Academia do que Em Ritmo de Fuga.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Se Em Ritmo de Fuga, de fato, ganhar.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Aff cara, independente da competência do resto, a ideia de Em Ritmo de Fuga não ganhar já me faz querer achar alguém pra mandar à merda.

MELHOR DESIGN DE PRODUÇÃO:
QUEM DEVERIA GANHAR: A Forma da Água.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: A Forma da Água. O filme já tem favoritismo e o design de produção rico e criativo é uma das marcas registradas do cinema de Guillermo del Toro.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Blade Runner 2049, que, assim como o filme de Guillermo, usa do design de produção para aprofundar mais seus personagens e o enredo.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Nada contra os belíssimos cenários de A Bela e a Fera, mas eles basicamente recriam o design da animação original.

MELHOR FIGURINO:
QUEM DEVERIA GANHAR: Trama Fantasma.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Mark Bridges, por Trama Fantasma, afinal, é um filme que gira em torno dos figurinos.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Jacqueline Durran está duplamente indicada, e ela já surpreendeu como azarona levando pra casa essa estatueta por Anna Karenina (uma aposta arriscada que, aliás, eu acertei) - quem sabe não repete o feito? Até porque seu trabalho em O Destino de Uma Nação é complementar ao de maquiagem (que deve vencer na categoria) e à própria atuação de Gary Oldman (também favorito), que se beneficiou muito dos enchimentos prostéticos desenvolvidos nos figurinos de Durran. Faria sentido premiá-la aqui. Ainda assim, quem levou o troféu do sindicato da categoria foi A Forma da Água, então, sei lá...
SE GANHAR MANDO SE FODER: O que tem demais em Victoria e Abdul?

MELHOR MAQUIAGEM E CABELO:
QUEM DEVERIA GANHAR: A Forma da Água. Eu sei que o filme não foi indicado aqui, mas não quer dizer que ele não mereça ganhar.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Com certeza não vai ser A Forma da Água. Deve ser O Destino de Uma Nação, né.
UMA BOA SURPRESA SERIA: A Forma da Água aparecer como indicado de última hora, e vencer.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Vocês sabem o que eu vou dizer né, pois bem.  

MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL:
QUEM DEVERIA GANHAR: As trilhas de Hans Zimmer (Dunkirk) e Jonny Greenwood (Trama Fantasma) podem não ser daquelas que você sai do cinema cantarolando, mas são partes essenciais das atmosferas de seus filmes.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Alexandre Desplat, por A Forma da Água, que se faz bastante presente e melodioso. Além disso Desplat já venceu recentemente (por O Grande Hotel Budapeste) e deve se beneficiar do favoritismo do projeto.
UMA BOA SURPRESA SERIA: John Williams, por Star Wars: Os Últimos Jedi. Fazia tempo que o mestre não fazia algo digno de seu nome, e esse último episódio da saga foi excepcional, merece algum reconhecimento.

MELHOR CANÇÃO ORIGINAL:
QUEM DEVERIA GANHAR: Remember Me, de Viva,  que é o centro de uma das cenas mais lindas desse Oscar.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Thi is Me (O Rei do Show), que é dos mesmos compositores premiados no ano passado por La La Land. Além do que, o vídeo dos bastidores da gravação da música viralizou na época do lançamento, o que deve servir de ajudinha.  
UMA BOA SURPRESA SERIA: Remember Me, ué. Não me faz chorar de novo.

MELHOR MIXAGEM DE SOM:
QUEM DEVERIA GANHAR: Em Ritmo de Fuga, porque, enfim, se você viu Em Ritmo de Fuga você sabe.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Em Ritmo de Fuga, porque conciliar os efeitos sonoros, os diálogos rápidos de Edgar Wright e aquele número absurdo de músicas deve ter sido um pesadelo pro mixador.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Blade Runner 2049 usa muito bem a mixagem pra conversar com o público - embora tenha quem ache um exagero a atenção dada a alguns efeitos sonoros do filme. E é bom atentar que ele venceu o troféu do sindicato nessa área.

MELHOR EDIÇÃO DE SOM:
QUEM DEVERIA GANHAR: Ué, Em Ritmo de Fuga né.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Aqui deve dar Dunkirk (merecido né). Quer dizer, é a minha aposta oficial, mas a Academia costuma achar que Mixagem e Edição de Som são a mesma coisa (não são, mas repara só que as duas categorias trazem os MESMOS indicados), então não duvido que eles repitam a velha rotina de premiar um filme só nas duas - ou dependendo, se resolverem inverter, posso errar ambas.
UMA BOA SURPRESA SERIA: Eu digo Em Ritmo, vocês dizem de Fuga.

MELHOR EFEITOS VISUAIS:
QUEM DEVERIA GANHAR: Todos os indicados estão de parabéns. Não, sério, vou levantar aqui e bater palmas. Todos merecem essa estatueta. Mas meu voto seria para Planeta dos Macacos: a Guerra, porque os efeitos são vitais para a abordagem do filme, que escrutina as feições digitais de seus personagens em closes fechadíssimos o tempo inteiro - eles NUNCA soam artificiais.
QUEM VAI GANHAR NA REAL: Vou dizer Planeta dos Macacos: a Guerra, porque os efeitos são da Weta, que já é uma empresa queridinha da Academia, e porque os outros dois filmes da franquia concorreram e não ganharam.  
UMA BOA SURPRESA SERIA: Mas tá todo mundo de olho nesse careca dourado aqui, o que dá a Blade Runner 2049, pelos motivos que já discorri lá em cima, a vantagem da suplência.
SE GANHAR MANDO SE FODER: Todo mundo se fode aqui, porque não importa quem ganhe, certamente vai deixar prá trás outros quatro injustiçados.

CURTAS:
É bem difícil pra nós, brasileiros, assistir a todos os curtas indicados, então minhas apostas aqui são mais pelo que dizem as probabilidades e a carreira dos filmes em questão.
ANIMAÇÃO: Dear Basketball - mas cuidem Lou, da Pixar, porque né, é a Pixar.
FICÇÃO: DeKalb Elementary - fala sobre um tiroteio em massa numa escola e, portanto, tem o momentum perfeito.
DOCUMENTÁRIO: Heroin(e) - histórias de superação sempre ganham o coração da Academia.



quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

CRÍTICA: TRAMA FANTASMA


Há cineastas competentes, há aqueles que fazem bons filmes, outros que conseguem produzir de vez em quando uma obra-prima, talvez até um clássico. E há Paul Thomas Anderson, que faz milagres; Como pegar uma pessoa comendo omelete e transformar isso no clímax de seu filme.

Dono de uma filmografia singular que costuma navegar entre os mais variados contextos em prol de estudar os personagens alquebrados e sombrios que os habitam, o realizador já se debruçou sobre a história do ator pornô vivido por Mark Wahlberg em Boogie Nights, passou também pelas figuras perdidas de Magnólia, o explorador de petróleo de Daniel Day-Lewis em Sangue Negro, chegando até o lacaio encarnado de forma tão visceral por Joaquin Phoenix em O Mestre. Todos filmes que não se censuravam sobre observar essas pessoas de forma íntima e paciente, extraindo choque, delicadeza, tensão e até mesmo humor de conversas triviais ou eventos inusitados — como a já icônica chuva de sapos. Caramba, Anderson já conseguiu tirar uma performance de Oscar até mesmo de Adam Sandler — e Embriagado de Amor pode até ser o seu filme menos primoroso (o que ainda é um baita elogio), mas é uma releitura fascinante do subgênero das comédias românticas.

O que nos leva a esse Trama Fantasma, seu primeiro filme desde o pouco compreendido (e igualmente inebriante) Vício Inerente, retomando a parceria com Daniel Day-Lewis (no que é a suposta aposentadoria do ator) para contar a história de Reynolds Woodcock, um designer de roupas femininas em plena década de 1950 que traz a ingênua Alma (Vicky Krieps) para morar em sua luxuosa casa e atelier em Londres, onde a moça passa a desempenhar o papel de amante e modelo favorita. Entretanto, como estamos falando de um filme de Anderson, é óbvio que nenhuma dessas figuras se mantém tão simples, e logo o cineasta nos mergulha nos pormenores incomodativos de suas personalidades. Primeiro, nos convida a conhecer a rotina da casa dos Woodcock, que além de Reynolds e das dezenas de costureiras e empregadas que habitam o lugar dia e noite com ele, também é regida por sua irmã Cyril (Lesley Manville). E as primeiras imagens cedidas pelo diretor acompanham os passos e gestos apressados e treinados das serviçais subindo escadas e preparando as ferramentas de trabalho, quase como enfermeiras em torno de um cirurgião — e se o fato de serem recebidas pelo nome já indica a longa convivência que ele mantém com elas, mais tarde o filme as coloca trabalhando em um vestido sob uma forte luz branca, como se, de fato, estivessem operando um paciente.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

CRÍTICA: PANTERA NEGRA


“Me joguem no mar, como meus ancestrais que pulavam dos navios, pois até eles sabiam que morrer era melhor do que viver preso”.


A fala é de um personagem negro criado na periferia de uma metrópole americana, que sofreu com a pobreza, a brutalidade policial, a desigualdade de oportunidades e as demais expressões do racismo no mundo moderno. Hoje, ciente da trajetória dos povos africanos na história humana, essa figura lidera uma revolução contra a opressão racial. O curioso é que este é o vilão de Pantera Negra, sinal da complexidade temática e da força política de um projeto que já nasce necessário ao (apenas agora em 2018) finalmente estampar pela primeira vez o pôster de um blockbuster de super-herói com um elenco majoritariamente negro.



Era importante então que a Marvel trouxesse uma pessoa negra para encabeçar o projeto - não adianta fazer uma megaprodução sobre um herói africano e colocar ela sob a perspectiva de um Michael Bay. E para além de sua cor de pele, Ryan Coogler já vinha oferecendo uma visão interessante sobre as temáticas de luta, repressão e racismo na sua filmografia, que apesar de pequena, é significativa. Antes de dirigir Creed, sétimo filme da franquia Rocky focado no garoto do título, o cineasta vinha do impactante Fruitvale Station, produção independente baseada num caso de abuso policial contra um rapaz negro em 2008 - aliás, ambos protagonizados por Michael B. Jordan, com quem retoma a parceria neste seu terceiro longa-metragem, na pele do antagonista Erik Killmonger.


Dando continuidade ao Universo Cinematográfico da Marvel (o MCU), Pantera Negra se distancia bastante do núcleo central (e americano) dos Vingadores e se foca em Wakanda, um pequeno país que vive escondido do mundo na selva africana, camuflado através de sua tecnologia avançadíssima - aliás, é notório que o projeto tem consciência de seu próprio potencial político, já que busca ser acessível ao também se fazer mais independente do resto do MCU. Construída sobre uma mina quase inesgotável do precioso metal chamado Vibranium, a nação de Wakanda nunca dividiu sua tecnologia, suas armas ou conhecimento com outros povos, nem mesmo com aqueles descendentes da África e cujos antepassados sofreram com a escravidão, o racismo e agora lidam com as sequelas sociais disso; uma indiferença que causa a revolta de Killmonger, que usa o contrabandista Ulysses Klaue (Andy Serkis) para tentar tomar posse dos recursos do lugar agora que o trono está passando para as mãos de T’Challa (Chadwick Boseman), que como rei, também assume o manto do guerreiro Pantera Negra.


Erik, portanto, se destaca dentre os personagens desse universo (e me refiro a todos os filmes da Marvel aqui), pois apresenta uma ideologia muito tátil em relação ao contexto da nossa realidade, o que faz dele realmente mais um opositor do que, de fato, um vilão para T’Challa - algo mais próximo da relação Magneto e Professor Xavier. Apesar de seus métodos radicais, é difícil argumentar contra as motivações do personagem, que chega a questionar o conforto da elite e da realeza de Wakanda ao apontar que  “existem cerca de duas bilhões de pessoas que se parecem conosco e a vida delas é bem mais difícil!”. Afinal, basta olhar para fora das telas do cinema e perceber que o presidente do Brasil lida com pobre em favela através de intervenção militar, corroborando com um sistema que lota prisões em condições desumanas apenas com pessoas dessas classes. Ou ainda, é só notar como a polícia nunca “atira preventivamente” em gente branca, nem para “motorista suspeito” caucasiano em zona nobre, e que na nossa realidade, negro em universidade provavelmente conseguiu entrar lá com ajuda de cotas - mesmo que tenha quem diga que isso é “coisa pra favorecer vagabundo”.


A força de Erik Killmonger então vai além do antagonismo. Ele é um personagem escrito para ser incômodo no sentido mais literal da palavra - acabar com o comodismo de algumas ideias e posturas. E Michael B. Jordan entende a trajetória do algoz, fazendo um trabalho admirável ao dosar pelo menos um pouco de raiva em todas as suas falas, mesmo que algumas delas estejam disfarçadas com um cinismo e sarcasmo característicos dos estereótipos do “cara negro engraçado” perpetuado por Hollywood - uma tática que Killmonger parece adotar deliberadamente para demonstrar que aprendeu a esconder sua verdadeira personalidade usando os preconceitos da sociedade contra a própria. Essa sua estratégia de se disfarçar de clichê da pessoa negra fica bem óbvia nos instantes em que o personagem é posto em ação e revela seus modos pragmáticos e movimentos precisos dignos de um treinamento militar de ponta - mas acima disso, Jordan demonstra uma performance estudada quando a “persona” criada por Erik não é mais necessária, dando a ele a chance de protagonizar duas das cenas mais comoventes do filme (pra não dizer de todo o MCU).


Já T’Challa volta a ganhar de Chadwick Boseman uma aura de dignidade e gentileza que casam bem com a figura do rei e herói, e é interessante como seu arco engrandece quando complementado pelos embates com Erik - ele não deixa de enxergar o antagonista como um monstro despótico, apesar de compreender sua revolta. Aliás, depois de dizer mais de uma vez que adota os métodos dos opressores para combater os mesmos, não é por acaso (e nem mesmo soa como uma crítica sutil) que os planos de Killmonger envolvam armar a população. O entrelace entre as trajetórias do protagonista e vilão, inclusive, é amarrado por Ryan Coogler de forma elegante através de rimas visuais aqui e ali: se a câmera começa invertida de cabeça para baixo ao acompanhar Erik entrando na sala do trono, ela volta a se estabilizar quando enfoca T’Challa no mesmo enquadramento em outro instante; se o filme começa com o quadro de algumas crianças negras observando wakandianos abandonando-as à própria sorte, ele termina com a imagem de outras crianças no mesmo lugar descobrindo figuras negras de poder em quem se inspirar (o que, em si, já sintetiza simbolicamente o papel do projeto).


Porque sim, é importante que se façam filmes sobre todos os horrores que a escravidão e o racismo produziram por séculos, mas igualmente é preciso não reduzir a figura da pessoa negra somente a esses papéis (o escravo, o mordomo, o marginal, o pobre, o cara engraçado etc.), ou se não, por mais espaço que dê a artistas negros, a mídia vai passar apenas a endossar as condutas racistas enraizadas. Ver um exército liderado e formado apenas por mulheres negras que se tratam não como soldados, mas como irmãs, um homem negro que é rei de um país desenvolvido e pacífico, uma garota negra que é mestre em ciências e tecnologia, além de uma senhora negra cuja jornada diplomática lhe garantiu o respeito de diversos líderes, são construções praticamente inéditas no imaginário popular, mas que agora estão à frente de um filme de grande orçamento e visibilidade. E Pantera Negra, enquanto produto, entende isso. O design de produção, por exemplo, concebe Wakanda como uma grande metrópole desenvolvida repleta de arranha-céus que misturam a esterilidade do vidro e metal com coberturas de palha e acabamentos de madeira, remetendo às cabanas africanas, assim como, ao nível do chão, a cidade apresenta a configuração de bairros periféricos, com ruas apinhadas de gente, linhas de metrô que passam por cima do vivo comércio local, instalados em prédios decorados com grafite e embalados por composições Hip-Hop - todos elementos historicamente ligados aos movimentos de luta contra a opressão.


A trilha de Ludwig Göransson também faz jus a essa ideia, e investe em cânticos tribais baseados principalmente no trabalho vocal, tornando-os harmônicos a composições eletrônicas que remetem diretamente às faixas criadas a partir de sintetizadores, bastante presentes na musicalidade das periferias, principalmente porque são recursos acessíveis às pessoas que não têm condições de se submeter a um ensino musical clássico. Enquanto os figurinos de Ruth E. Carter trazem uma miscelânea de referências que transitam entre o ancestral e o moderno de forma orgânica, e acho especialmente belo como os mantos dos sacerdotes do templo onde é cultivada a planta sagrada que dá poderes ao Pantera Negra, possuem a mesma cor e textura semelhante às flores que nascem ali. Aliás, a presença de mulheres no universo tanto dentro quanto fora da tela não é para ser ignorada também - além de Carter (que já vestiu o elenco de filmes como Malcom X, Amistad e Selma), há também a diretora de fotografia Rachel Morrison (indicada ao Oscar na categoria por Mudbound) e a montadora Debbie Berman. Já em Wakanda, Lupita Nyong’o e Danai Gurira fazem o suficiente em apenas uma sequência para fazer o espectador implorar por um filme solo de suas personagens, enquanto a Shuri de Letitia Wright se estabelece como uma das personagens mais carismáticas de todo o MCU - e o diálogo que divide em certo momento com Ross (Martin Freeman), não deixa de ser uma inversão divertida das expectativas sobre os papéis de um americano branco e uma menina negra, quando ela infere a famosa frase de Arthur C. Clarke sobre tecnologia e magia contra a admiração do Agente da CIA.


O que, por fim, prova que Pantera Negra é um filme pensado de ponta a ponta e ciente do marco que é - o fato de funcionar como narrativa acaba sendo um bônus. O projeto representa um passo da Marvel em direção à relevância, pois embora cheio de filmes divertidos e envolventes, o MCU raramente tinha se arriscado a ser demasiadamente político - uma cartilha que é jogada pro alto quando T’Challa fala (quase que diretamente para Donald Trump) sobre sábios que constroem pontes e tolos que levantam barreiras. E se a jornada desses personagens comove mesmo a este branquelo que vos escreve, eu nem posso começar a mensurar o que ela significa para as pessoas que têm na pele as vivências que ainda tornam um filme assim necessário.



Nota: 9/10


quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

CRÍTICA: A FORMA DA ÁGUA


“Incapaz de perceber a Tua forma, eu te vejo ao meu redor”

Existe uma delicadeza inerente que atravessa a obra de Guillermo del Toro e denuncia no diretor um carinho especial pelos párias, os diferentes e estigmatizados - mais do que isso, há no cineasta uma vontade de testemunhar por eles e atestar que não é a aparência ou a natureza do indivíduo que o definem como digno de amor ou como merecedor da alcunha de monstro. Quando decide narrar o romance entre Elisa (Sally Hawkins) e o Homem Anfíbio (Doug Jones), o realizador mexicano faz de A Forma da Água o seu filme mais óbvio sobre o tema, ao passo em que relembra porque se consagrou um mestre criando histórias de fantasia que fogem da puerilidade habitual desse gênero e se entregam a um olhar mais adulto - não porque insere sexo e violência nas suas fábulas, mas sim porque adota sobre esses elementos a mesma perspectiva amadurecida, recorrentemente melancólica e, por vezes, brutal com que trata as demais características mágicas e sobrenaturais dos universos que concebe. Pois, no ímpeto de criar e observar contos de fadas através do ponto de vista das figuras relegadas às sombras deles, acaba construindo uma estranheza delicada que força o espectador a encontrar beleza onde antes era certa a repulsa e o medo. Assim, não deixa de ser poético (e nem um pouco por acaso) que seu novo projeto seja também uma declaração de amor à técnica do Cinema, que igualmente às criaturas inventadas por del Toro, é constituída tanto de luz quanto de escuridão.

Então é flagrante que ele escolha como protagonista uma mulher muda que se alia a outra que é negra, Zelda (Octavia Spencer), e ainda ao pintor homossexual Giles (Richard Jenkins) para salvar de um laboratório governamental o Homem Anfíbio, tendo de driblar para isso o perigoso chefe de segurança do lugar, Strickland (Michael Shannon) - pois dessa forma o filme articula claramente uma união de minorias contra o homem, branco, heterossexual, religioso e conservador. Mas se a ideia geral em si é óbvia, o que a torna tão eficiente é que del Toro parece realmente entender o cerne do conflito - não é o preconceito pelo preconceito que cria o ódio enraizado do vilão, mas a ignorância e o medo. Uma pessoa muda, por exemplo, muitas vezes é classificada como deficiente física por precisar se comunicar e interagir com o mundo de uma forma diferente da maioria - então por que quando um estrangeiro entra no país falando uma língua completamente diferente e alheio ao idioma local, isso não é considerado uma deficiência também? Levando ainda em conta que cada forma de comunicação carrega consigo toda uma cultura de hábitos e entendimentos diferentes sobre o mundo, deficientes não seriam então aqueles incapazes de se adaptar à diversidade?

Afinal, o mesmo pode ser dito da cor de pele de Zelda, da orientação sexual de Giles ou da natureza do Homem Anfíbio - são formas, comportamentos e configurações de corpos diferentes das usuais que padronizamos como as “corretas”, e que proporcionam aos indivíduos que as carregam experiências de vida diversas. A pergunta que del Toro e a roteirista Vanessa Taylor levantam é: por que não permitir que todas essas diferenças inundem o nosso universo pessoal? Que amarras absurdas são essas que colocamos nas pessoas ao nosso redor e em nós mesmos que predispõe um tipo de amor delimitado pela composição dos corpos, pelo modo que eles se expressam ou até pelo lugar de onde eles vieram? A água esverdeada onde encontramos Elisa pela primeira vez seria o símbolo dessa atmosfera de aceitação e liberdade? Pois não por acaso, é submersa nela que a moça se masturba e onde mais tarde ela mergulha para se unir enfim ao seu amado. O design de produção, junto ao diretor de fotografia Dan Laustsen, preenchem quase todas as imagens do longa com algum tom de verde, e o contraste fica a cargo do vermelho que passa a emergir aos poucos na roupa da protagonista, também vestindo a sala de cinema sobre a qual fica o seu apartamento. Aliás, é curioso que o mesmo vermelho que remete à paixão também seja um arauto do perigo - é a cor do sangue e da violência, tão presentes nesse universo úmido quanto o amor.

E Guillermo del Toro usa aqui ao máximo as potencialidades da sétima arte para contar a sua história - nesse sentido é quase uma piscadela para o espectador que a “base” sob os pés de Elisa seja um Cinema. Ele e Dan Laustsen, por exemplo, brincam com a luz e a tornam subjetiva aos personagens, aqui trazendo Elisa com uma faixa de luz estrategicamente colocada sobre os olhos molhados de choro, ali revelando o Doutor Hoffstetler (Michael Stuhlbarg, incapaz de ser menos do que excepcional mesmo quando em papéis menores) surgir das sombras inesperadamente - isso sem contar o momento mais escancarado (e belissimamente esquisito) que traz a heroína imaginando um número musical da Hollywood clássica em preto e branco ao lado de seu amor escamoso. Inclusive, del Toro não deixa de permear a narrativa com inserções espertas de filmes e músicas que não só estão contextualizados com a época (os anos 1960), como também com a temática.

Para dar ao conto o tom de fábula, del Toro concebe aquele mundo de forma lúdica, trazendo funcionários do governo com cortes de cabelo retos, espiões que se encontram em bares durante a noite e pessoas com comportamentos caricatos adversos - o homem que leva balões no ônibus, a colega de Elisa que sempre reclama da fila de bater o ponto, o dono do cinema que vive para alardear que o lugar não é frequentado por ninguém etc. Esses recursos e a ambientação quase sempre noturna garantem que o prédio habitado por Elisa tenha sempre esta aura mágica, que remete diversas vezes aos microuniversos de filmes como Delicatessen e O Fabuloso Destino de Amélie Poulain. E isso contrasta com a casa ensolarada e multicolorida da família de Strickland, que parece saída de um comercial da Coca-Cola na década de 1960, com direito a uma esposa modelo e devota ao marido e um par de crianças imaculadamente arrumadas. Michael Shannon, aliás, faz um trabalho incrível ao romper com essa ilusão e revelar no chefe de segurança comportamentos machistas, abusivos e recorrentemente racistas - traços também simbolizados pelos seus dedos remendados, que vão gangrenando mais com o passar do tempo. E quando o flagramos lendo um livro de auto-ajuda, fica claro que sua vilania provém da incapacidade de lidar com todos os diferentes tipos e opiniões ao seu redor, e do medo de um dia ser tratado da mesma forma que dispensa a eles.

Entretanto, é Sally Hawkins quem consegue ser a intérprete mais expressiva em cena, mesmo sem poder falar. Elisa impõe o tom do que diz na intensidade dos seus gestos, e seu olhar frequentemente dispensa qualquer frase. Ela parece querer tocar em tudo ao seu redor, denunciando seu olhar diferenciado sobre o mundo a sua volta, além de revelar uma simplicidade natural de sua personalidade em pequenas ações, como ao colocar seu chapéu na janela do ônibus para escorar a cabeça, ou no modo como dispõe os ovos na beira de um tanque. E o carisma da personagem só aumenta quando Hawkins tem a chance de interagir com seus colegas de cena, especialmente Richard Jenkins, que oferece uma performance delicada e tocante como o vizinho e amigo da moça - e o pequeno sapateado que dividem em certo instante diz mais sobre a relação dos dois do que qualquer diálogo seria capaz de expressar.

E se os monstros criados pela ficção quase sempre serviram de símbolo para algo exterior às obras que assombravam (os zumbis já levantaram a bandeira do consumismo desenfreado, o Godzilla já devastou as cidades no Japão assim como as bombas nucleares o fizeram também, e o próprio Frankenstein é o estandarte falho da fragilidade masculina inerente provinda da sua incapacidade de gerar vida), a criatura aquática de del Toro (vivida por seu parceiro habitual  Doug Jones, incrivelmente expressivo sob a pesada e excelente maquiagem) parece existir para nos lembrar de um problema muito mais básico, universal, óbvio e, ainda assim, tristemente contemporâneo (tanto aos anos 1960 quanto aos atuais): intolerância. Nem sempre os seres que habitam a escuridão são ruins apenas por isso, pois muitas vezes eles estão lá porque esse é o lugar para onde foram marginalizados. As mulheres, os deficientes, a comunidade LGBTQ e as diferentes cores de pele, mas também aqueles de diferentes religiões, opiniões políticas e os que sofrem com a pobreza ou a depressão - não deixa de ser simbólico, inclusive, que ao entrar em um breve confronto com o Homem Anfíbio, Giles acabe com os pulsos cortados.

É estranhamente adequado, portanto, que nos dias de hoje tenha sido necessário um monstro para simbolizar aquilo de que mais precisamos: amor. Pois, por mais piegas que seja a mensagem, é apenas enxergando as pessoas para além de suas formas, que as teremos todas ao nosso redor.

Nota: 10/10



quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

CRÍTICA: THE POST: A GUERRA SECRETA



Houve um tempo em que Steven Spielberg era um dos meus diretores favoritos. Quando seu nome vinha estampado no topo de um cartaz, era certo que aquele seria um dos filmes mais falados do ano. Entretanto, desde que lançou o excepcional Munique em 2005, o cineasta veio trilhando um currículo altamente irregular, do duvidoso Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal passou para o divertido As Aventuras de Tintim, que impressionava mais pela técnica. Seguiu-se a este os aborrecidos Cavalo de Guerra e Lincoln, cujos méritos pontuais não foram o suficiente para torná-los filmes mais interessantes. Já com Ponte dos Espiões o diretor se saiu melhor e mostrou que ainda tinha algum fôlego, mas tratou logo de desiludir seu público ao lançar O Bom Gigante Amigo, possivelmente o seu filme mais embaraçoso. The Post: a Guerra Secreta finalmente acaba com esse jejum de quase treze anos, e faz jus a reputação de um dos realizadores mais celebrados e icônicos do Cinema.