quinta-feira, 29 de março de 2018

CRÍTICA: JOGADOR NÚMERO 1


Tem muita gente que podia ter dirigido este filme. Há uma gama de cineastas de talento pelo mundo que construíram suas carreiras em cima da cultura pop - especialmente a das décadas de 1970 e 1980. São cabeças inteiramente capazes de compor uma obra recheada de referências com um ritmo ágil e divertido. Jogador Número 1, portanto, não é um filme autoral que somente Steven Spielberg poderia dirigir - até porque, salvo raros acertos, o realizador não dava uma dentro desde 2005, quando lançou o magistral Munique. Além disso, através de sua filmografia e influência, Spielberg contribuiu imensamente para a democratização do Cinema na grande indústria - se hoje existem inúmeras obras para serem referenciadas e uma pluralidade tão grande de cineastas excelentes, é também devido ao seu trabalho. É impossível falar sobre a história do Cinema sem passar por Spielberg.


Então, ao menos uma coisa é certa: embora qualquer um pudesse ter feito esse filme, somente Steven Spielberg tinha o DIREITO de dirigir Jogador Número 1. Baseada no livro homônimo de Ernest Cline, a trama se passa em 2045 num mundo superpopuloso entregue às grandes corporações e à miséria, onde o jovem Wade (Tye Sheridan), assim como milhões ao redor do globo, escapam da triste realidade para dentro de um ambiente virtual chamado Oasis. Criado pelo introspectivo nerd chamado Halliday (Mark Rylance), esse mundo de jogos permite que os usuários adotem avatares para travar batalhas e cumprir missões no intuito de ganhar mais moedas virtuais - e num futuro tão sombrio, não surpreende que as pessoas queiram personalizar os avatares, os objetos e cenários no Oasis com inspirações em personagens, filmes, séries, jogos e demais mídias oriundas de épocas em que a cultura pop era mais amistosa (o que dá ao filme a chance perfeita de metralhar o espectador com easter eggs de todas as origens possíveis).


E é importante frisar que, quando ressalto a autoridade de Spielberg para comandar uma obra desse cunho, não tô só falando do cara que é responsável por tantos desses ícones da cultura pop e que dirigiu filmes como E.T., Contatos Imediatos do Terceiro Grau e Indiana Jones. Steven Spielberg protagonizou em Hollywood uma mudança significativa no sistema de produção dos grandes lançamentos ao lado cabeças como Stanley Kubrick, Francis Ford Coppola e Brian De Palma - seus amigos pessoais, e que por isso mesmo têm suas obras referenciadas em pontos chave da narrativa de Jogador Número 1. Antes, os chefões por trás de um filme eram o estúdio e os produtores, e no cartaz vinha estampado acima do título o nome da empresa e dos homens que pagaram pelo filme - a não ser em casos mais específicos, não importava muito para o público de quem era a direção ou o roteiro. Essa galera que despontou nos anos 1970 lutou para ter o controle criativo sobre seus filmes, e entregou resultados positivos de bilheteria e crítica - Steven, sozinho, definiu e popularizou o termo blockbuster ao lançar Tubarão em 1975.


Como Hollywood logo percebeu que dar voz aos autores era um mercado lucrativo, despontaram, além dos nomes citados antes, talentos como Ridley Scott, George Lucas, James Cameron (todos referenciados em Jogador) e, óbvio, John Hughes - um dos pais dos anos 1980, também é homenageado aqui através de citações a Clube dos Cinco e Curtindo a Vida Adoidado. Mas Spielberg foi, provavelmente, a voz mais popular dessa época, e em retrospectiva não é difícil entender seu apelo. Conhecido por seu otimismo e idealismo (às vezes em excesso), o cinema de Spielberg nasceu como resposta ao ceticismo cultural generalizado que dominava o mundo no final dos anos 1960 e, principalmente, durante os anos 1970 - era uma onda de conservadorismo político, guerras, ditaduras (incluindo a nossa no Brasil), recessões econômicas e um cientificismo industrial voltado às disputas tecnológicas entre as potências que dividiram o globo. Lembre que o próprio gênero dos western morreu neste período porque os cowboys e pistoleiros eram figuras romantizadas demais para tempos tão pragmáticos - entraram no seu lugar a ficção científica de obras como 2001: uma Odisseia no Espaço (que tinha congêneres russos nos filmes de Andrei Tarkovsky), o pessimismo político de thrillers como Todos os Homens do Presidente, sem contar o viés crítico e existencialista de quase todos os projetos que buscavam retratar a Guerra do Vietnã quase em tempo real.


Foi uma época bastante semelhante a nossa hoje, de muitas maneiras. Então faz sentido que agora o idealismo de Spielberg volte a soprar vivacidade para dentro de suas obras. Aliás, esta é a palavra chave aqui e um dos principais méritos de Jogador Número 1: trata-se de um filme ágil, divertido e montado com ritmo. O diretor que, desde os primórdios de sua carreira sempre demonstrou entender que a energia de um filme é extraída da relação de um plano com o seguinte, só potencializa ainda mais sua expertise quando decide movimentar sua câmera quase que a todo instante - especialmente nos ambientes digitais do Oasis, onde os cenários e câmeras virtuais lhe permitem total liberdade para criar planos em movimento que se aproximam, se afastam ou rodeiam os personagens. Essa gramática visual permeia o filme com uma ideia de constante movimento - algo que, deve ser ressaltado, Spielberg não começou a usar agora. Desde que flertou com o mundo das animações em As Aventuras de Tintim o cineasta se tornou um fã adepto do travelling, dos carrinho dolly, gruas e dos demais equipamentos que possibilitam manter a câmera sempre deslizando pela cena.


Esta sensação de que o filme não freia (apesar de o roteiro às vezes ser expositivo demais) surge também da trilha, tanto a excepcional escolha de canções que, por si só já são uma ode à cultura pop oitentista, como das composições incidentais de Alan Silvestri, que entra no lugar da religiosa colaboração do mestre John Williams - o que, na verdade, é muito apropriado, já que Silvestri é um parceiro habitual de Robert Zemeckis, amigo e pupilo de Spielberg, para quem Steven deu de mão beijada o argumento de De Volta para o Futuro, não por acaso uma das obras mais referenciadas em Jogador Número 1. Aliás, por mais que seja interessante notar as homenagens e reverências de Spielberg aos seus ídolos (Kubrick), parceiros (Lucas, Scott) e pupilos (Zemeckis, Chris Columbus - cujo nome é emprestado ao bairro onde mora Wade), o cineasta é inteligente o bastante para não alienar o espectador dono de um repertório menor. As referências existem e aprofundam o universo, mas não são essenciais para compreender a trama - ainda que a tornem muito mais divertida para aqueles que têm o referente. Além disso, as cenas de ação resgatam aquele Spielberg da trilogia original de Indiana Jones, coreografadas com a maestria de um ballet e sempre impulsionando o roteiro pra frente.


Aliás, é curioso que Spielberg tenha lançado este filme logo após The Post, que já indicava o diretor voltando aos trilhos e é um projeto muito diferente. Essa foi uma situação comum para o cineasta no ápice de sua carreira: por exemplo, em 1993 ele comandou Jurassic Park (uma ficção científica) e também A Lista de Schindler (um drama de guerra); em 2001 dirigiu Minority Report (um thriller futurista), assim como Prenda-me se For Capaz (uma comédia biográfica); e em 2005 assinou Guerra dos Mundos (mais uma ficção científica) e o próprio Munique (um thriller político de época). Obras tão distintas entre si ilustram não só a amplitude do espectro de talento do realizador, como sua diversificada trajetória.


Uma carreira que, hoje, culminou nesse Jogador Número 1, cuja história que levanta a bandeira de preservação da cultura popular é o canal perfeito para que o Spielberg idealista e militante das virtudes da humanidade expresse seu grito contra um mundo sombrio e cético. Afinal, quando o gênio Halliday morre e deixa uma série de pistas e desafios que, se desvendados e vencidos, vão dar ao usuário vitorioso o comando do Oasis, entra o empresário Sorrento (Ben Mendelsohn), que tem um exército de jogadores trabalhando para que a sua corporação consiga o controle desse universo virtual. Então o filme é sobre isso, certo? Um espaço público e diverso ameaçado pela privatização de uma empresa heterogênea que visa apenas o acúmulo de capital sem escrúpulos - a imagem que traz milhares de seres de todas as formas, espécies, tamanhos e cores correndo para fazer frente aos soldados vestidos de maneira uniforme e com os olhos vendados resume bem essa ideia. É um discurso piegas e batido defender a união e o amor, o próprio Spielberg ajudou a tornar esses ideais um clichê - mas talvez seja exatamente isso que esteja faltando hoje, um pouco de idealismo e otimismo. Talvez esse Spielberg não seja mais o cineasta que o mundo merece, mas com certeza é aquele de que nós precisamos.


Nota: 10/10

Um comentário:

  1. É muito bom, não? Adoro os filmes de suspense, Ready Player One realmente teve um roteiro decente, elemento que nem todos os filmes deste gênero tem. A participação de Mark Rylance foi meu favorita, ele é um ótimo ator, e fez um trabalho excepcional e demonstrou suas capacidades, é um filme que vale muito a pena ver. Recém o vi em Dunkirk, é incrível. Christopher Nolan como sempre nos deixa um trabalho de excelente qualidade, sem dúvida é um dos melhores diretores que existem, a maneira em que consegue transmitir tantas emoções com um filme ao espectador é maravilhoso. Dunkirk é um filme com un roteiro maravilhoso. É um filme sobre esforços, sobre como a sobrevivência é uma guerra diária, inglória e sem nenhuma arma. Acho que é um dos melhores Christopher Nolan filmes é uma produção que vale a pena do principio ao fim. É um exemplo de filme que serve bem para demonstrar o poder do cinema em contar uma história através de sons e imagens, que é, diga-se de passagem, a principal característica da sétima arte.

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