sábado, 15 de fevereiro de 2014

CAÇADORES DE OBRAS-PRIMAS



Recentemente, por motivos diversos, me pediram para fazer um corte didático do filme Tudo Pelo Poder, para ser apresentado em uma aula de faculdade, reduzindo-o a no máximo quarenta minutos. Me encontrei então com uma tremenda dificuldade de retirar um segundo sequer de sua duração, já que cada uma de suas cenas me parecia necessária para o entendimento da próxima. Antes me tivessem entregado este outro filme dirigido e estrelado por George Clooney, Caçadores de Obras-Primas, do qual se poderia retirar muitos minutos com facilidade, sem garantir com isso, porém, que o resto se tornasse interessante.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ELA



Em um futuro (não tão diferente assim do nosso presente) onde cada indivíduo parece ter como melhor amigo o seu computador portátil, pouco comunicando-se um com o outro presencialmente, tornou-se desnecessário paras as pessoas demonstrarem seus gostos, estilos, opiniões ou posições sociais e políticas através da aparência. Estampas, logos, marcas e demais detalhes estilizados e ou personalizados fugiram da vestimenta do cidadão comum, em seu lugar, roupas coloridas, de uma paleta de tons básicos, que quando não se mostram chapadas em toda uma peça do vestuário, no máximo se espalham por alguma textura padronizada, unificando assim aquele conjunto de pessoas que em tempos de redes sociais e alta exposição da vida pessoal online, não precisam mais externar no mundo real suas nuances de personalidade. E deste modo, a roupa acaba servindo até mesmo para poupar o último resquício de comunicação entre eles, já que suas agradáveis cores vivas e suas texturas repetitivas parecem já adiantar pra o próximo “estou bem e tudo está normal, obrigado por perguntar”. E o figurino é apenas um detalhe admirável de Ela, novo longa-metragem de Spike Jonze, projeto que se mostra eficiente como estudo de personagem, romance, ficção-científica e debate filosófico. O que é algo considerável para um filme que fala basicamente sobre um homem apaixonado pela Siri.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TRAPAÇA




     O Vencedor foi um bom filme que, reconhecido na maioria das premiações ao menos com indicações, deu destaque ao seu diretor, David O. Russell, que apresentava então uma direção apenas correta, mas não admirável. Claro, este filme e seu projeto seguinte, O Lado Bom da Vida, foram frutos da produção dos Weinstein, que pra quem não conhece, são dois produtores que conhecem muito bem o funcionamento das premiações e sempre garantem ter um de seus filhotes entre os favoritos; às vezes são bons filmes que realmente mereciam o reconhecimento (como o próprio O Vencedor), outras vezes são projetos medianos (como o Lado Bom da Vida), e outras vezes ainda, são filmes que decididamente não mereciam nem mesmo se perder tempo escrevendo sobre, quanto mais um Oscar (cof cof, Shakespeare Apaixonado... COF COF!). Dito isso, Trapaça, novo longa do cineasta, não faz parte destas últimas categorias, mas tampouco é integrante da primeira, acontece de ser apenas um bom filme sustentado basicamente por seu elenco. Ponto final.


     Sendo assim, suas DEZ (!) indicações ao Oscar são no mínimo exageradas, principalmente aquela referente à direção, e tendo em vista que pela primeira vez os Weinstein não estão por trás do projeto, as de Melhor Filme, Montagem e Roteiro também. Categorias onde foi claramente superestimado. Se em O Lado Bom da Vida elogiava detalhes da condução de O. Russell como baixar a câmera rapidamente para filmar as mãos nervosas do personagem de Bradley Cooper, aqui tenho de engolir minhas palavras e admitir que o realizador demonstra ter se apaixonado pela própria criação ao repetir o mesmo plano diversas vezes, só que desta vez sem propósito algum, fazendo disso quase que uma destas assinaturas inúteis como os flares de J.J. Abrams, as lentes grande-angulares de Tom Hooper e os travellings circulares de Michael Bay.


     Mas méritos sejam dados ao homem no mínimo por enxergar que a força de seu filme se encontra no bom elenco que tem em mãos, sacrificando sua montagem para inserir o trio principal em uma divertida interação ao invés de optar pela ordem cronológica onde demoraria para apresentar a dinâmica entre os personagens. Christian Bale é um golpista chamado Irving, que apesar de sua ocupação, é um homem muito dócil e bondoso, casado com a supérflua Rosalyn (Jennifer Lawrence), ele começa a nutrir sentimentos pela comparsa de golpes Sydney (Amy Adams). Mas acontece de os dois serem pegos pelo agente do FBI Richie DiMaso (Cooper de novo), e para escaparem da prisão certa, aceitam ajudá-lo a pegar um criminoso, interpretado por Robert De Niro, outro que repete a parceira com O. Russell aqui. Para isso, além de lidarem com o chefe de Richie, Stoddard (um comedido, mas sempre divertido Louis C.K.), terão de usar ainda o político interpretado por Jeremy Renner - cuja maquiagem e figurino o transformaram em um cosplay do Prefeito Shelbourne de Tá Chovendo Hambúrguer.


     Esta aparência caricata dos personagens, aliás, traz um certo bom humor ao filme que ajuda a ressaltar o carisma de seus personagens e a química admirável entre eles, assim, se Renner parece um personagem saído de uma animação, Adams e Lawrence se enfeitam sem pudores e apesar da rivalidade entre as personagens, até mesmo dividem um divertido beijo. E é engraçado até que ambas estejam indicadas em categorias opostas as do ano passado no Oscar, já que se fosse por este filme, Lawrence de fato mereceria uma estatueta, uma vez que o papel de Rosalyn foge ao lugar comum da atriz, da mulher forte e determinada, aqui com trejeitos e entonações cadentes na voz; em particular, a discussão que tem com Irving sobre um micro-ondas é hilária graças a sua performance. Já Amy Adams, embora também fuja ao seu tipo comum, não chega a ser a fervorosa e devota esposa que lhe deu a indicação no passado, onde sua performance assustadora em O Mestre deveria ter lhe rendido a estatueta, se vivêssemos em mundo justo. Por outro lado, Cooper passa batido e sua cena mais memorável deve-se aos bobs presos em sua cabeça, sendo realmente Bale o grande destaque de Trapaça. Gordo, o ator volta a demonstrar sua incrível capacidade de alterar a forma física para interpretar seus personagens, vivendo Irving com uma insuspeita gentileza que nos faz até perdoar a “profissão” do homem, que aos poucos, nos conquista como um protagonista inteligente e carismático.


     Todos eles, figuras excêntricas que parecem caber naquele mundinho concebido por David O. Russell, que desde o início já nos avisa: “Alguns dos fatos a seguir são reais”. Mas o aviso seria dispensável, já que, além das composições e do design de produção, nada mais parece ressaltar o absurdo no longa, e novamente o cineasta não aposta em nenhuma linguagem diferenciada, ficando geralmente num esquema café com leite apenas correto, e mesmo o roteiro não apresenta a mais interessante das tramas, sendo o inevitável plot twist ao final, esquecível. David O. Russel volta assim a realizar um projeto que, se pouco se pode criticar, tão pouco quanto pode-se elogiar também, e tirando o elenco, sempre infalível, mas também sempre repleto de escolhas seguras e queridas pelo público, ainda não entendo qual é a grande comoção que o cineasta parece gerar com seus filmes.  

NOTA: 7/10



sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

47 RONINS



     Admito não ter assistido a nenhuma das versões cinematográficas anteriores da história dos 47 ronins, porém, espero profundamente que quando o fizer, estas se revelem obras mais apreciáveis que este aborrecido projeto desnecessariamente encabeçado por Keanu Reeves. E se uso o termo desnecessário é porque, de fato, o personagem vivido pelo ator poderia ser facilmente subtraído da trama sem maiores danos, pelo contrário, caso sua existência não fosse cogitada, talvez o longa se revelasse um muito mais interessante de se acompanhar. O que dizer então de um filme onde o protagonista parece não ser interferir ou ser importante para a trama principal?

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

O LOBO DE WALL STREET




Sexo, drogas, DINHEIRO e Rock and Roll!

     Com quarenta e tantos anos de carreira, Martin Scorsese não precisa mais pedir licença para entrar em nossas rotinas cinematográficas e nos agraciar com mais uma obra irretocável. Ao contrário de seus colegas que deslancharam mais ou menos na mesma época, como Steven Spielberg, Francis Ford Coppola, George Lucas e Ridley Scott, o cineasta exibe até hoje uma filmografia quase que imaculada, com raríssimos tropeços e que, ainda diferentemente destes outros, não tem se entregue cada vez mais à caduquice e a imbecilidades inexplicáveis. Retomando um estilo de narrativa que não adotava desde os excepcionais Cassino e Os Bons Companheiros, o diretor intercala em O Lobo de Wall Street um ritmo acelerado, sempre acompanhado da narração de seu protagonista, com longas sequências de diálogos muitas vezes inusitados e não menos interessantes. Isso quando não resolve juntar ambas as abordagens em uma só cena, rendendo momentos memoráveis como aquele em que o tal Lobo do título ensina a seus pupilos como ganhar um cliente por telefone, paralelamente a uma imitação hilária de um coito. Um cena que, aliás, sintetiza o espírito e a abordagem do longa, que ao expor aquelas figuras repreensíveis no cerne de suas deturpações de caráter, nos leva a rir pelo absurdo, mas um riso cheio de críticas e reprovações, despido de qualquer traço de admiração que alguém com uma índole tão canalha quanto a dos personagens aqui vistos, poderia ter em relação aos feitos dos mesmos.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

NINFOMANÍACA - VOLUME 1


     É preciso começar dizendo que o filme sobre o qual vou falar aqui, na verdade trata-se de um meio filme, o longa-metragem Ninfomaníaca, que originalmente tem em torno de cinco horas de duração foi obviamente dividido com fins comerciais em duas partes, sendo esta a qual assisti e sobre a qual escrevo agora, apenas a primeira metade dele. Aviso isso pois, como uma obra inacabada, há fatores que ainda não poderei falar ou avaliar com clareza, justamente devido a falta dos complementos da segunda parte, pois tecnicamente, estou aqui avaliando um filme sem parte do segundo ato ou mesmo um final. Dito isso, a outra coisa que já quero ressaltar desde cedo é que Ninfomaníaca não se trata de um filme chocante como então se acreditava que seria até mesmo seu objetivo principal enquanto projeto. O Sexo está presente de forma explícita? Depende o que você chamaria de explícito, para este que vos escreve, apesar de podermos ver muitas vezes partes íntimas, penetrações e coitos completos, estas cenas acontecem em prol da história e são tratadas por Lars von Trier de maneira tão natural que é impossível se constranger ou se espantar com quaisquer "ousadias". E ponho entre aspas porque é simplesmente idiota pensar que um ato tão natural como o sexo, praticado por praticamente todos os seres humanos (se não todos) em algum ponto de suas vidas, possa ser classificado como ousado ao ser retratado em tela. Então respondendo a esta pergunta hipotética levantada por mim mesmo, digo, se explícito para você quer dizer que poderá ver os órgãos genitais de quase todo o elenco então sim, é explícito. Porém, se com explícito você quer saber se isso será impactante, já lhe adianto: não será. O foco aqui é Joe (Charlotte Gainsbourg), uma personagem auto-depreciativa que por tratar o sexo como forma de exorcizar seus demônios acaba atribuindo ao ato um viés compulsivo. Aliás, é interessante notar que um filme onde a própria protagonista parece condenar seus atos e conduta, que de fato seriam mal vistos normalmente, consiga na verdade trazê-la sob uma perspectiva agradável e muito compreensível... Mas já estou falando demais para um primeiro parágrafo.