Não importa se a trama de um filme é clichê, mas sim se o modo como ela é narrada funciona e envolve o espectador. Mesmo os acontecimentos mais previsíveis podem receber uma nova visão e tornarem-se surpreendentes outra vez. Assim, quando Miguel, um menino pobre e cheio de sonhos acaba descobrindo por acidente uma passagem para um mundo mágico, naturalmente somos remetidos às trocentas vezes em que já assistimos essa mesma história antes. Então como é que Viva: A Vida é uma Festa parece recheado de frescor? Como é que as suas reviravoltas podem ser facilmente antecipadas e ainda cumprir com eficiência seus objetivos de tocar e comover? Ora, isso acontece porque o filme é pintado com as cores (vibrantes) de uma cultura muito diferente das que estamos acostumados a ver nas grandes produções hollywoodianas - e como nenhuma estética é desprovida de contexto, a nova animação da Pixar acerta por não apenas usar o Dia dos Mortos mexicano como roupagem para uma história “norte-americanizada”.
Não, o filme carrega consigo todas as diferentes percepções daquele povo sobre família, vida e, claro, sobre a morte. Então, por mais que repasse com delicadeza e competência as velhas lições sobre empatia e memória, o trunfo do projeto é realmente oferecer ao espectador a perspectiva de outra cultura sobre essas questões, o que, em última análise, desperta em nós justamente a empatia e a memória.





