quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

PHILOMENA



Indicado a quatro Oscars este ano, incluindo Melhor Filme, Philomena é o típico projeto que a academia adora premiar ou de alguma forma reconhecer. Baseado em fatos reais, conta a história da personagem título, uma senhora de idade irlandesa (Judi Dench) que, com a ajuda do pomposo jornalista Martin (Steve Coogan), tenta achar seu filho, de quem foi separada quando ele ainda tinha apenas poucos anos de vida. Equilibrando habilmente o drama da situação da nossa protagonista com o humor gerado a partir do choque entre seus jeitos simples e os mais etiquetados de seu colega de viagem, o longa de Stephen Frears, porém, não toma partidos ou ousa de qualquer forma, mantendo-se em uma zona de segurança que sempre garantem que filmes como estes sejam premiados temporada a fora.

CLUBE DE COMPRAS DALLAS



Clube de Compras Dallas é um filme de personagem, isso quer dizer que apesar de tratar de muitos interessantes temas, o foco é em como estes cenários afetam o arco de seu protagonista. No caso, Ron (Matthew McConaughey), é um eletricista e peão de rodeios aposentado que se descobre com AIDS. Preso no Texas dos anos oitenta, ele logo é excluído do convívio de seus amigos e colegas que o acusam de ser homossexual. Doente e com uma expectativa de vida estimada em trinta dias, ele se associa ao colega de quarto, o travesti Rayon (Jared Leto), e a médica Eve (Jennifer Garner) para fundar um negócio onde, por uma taxa significativa, disponibiliza para diagnosticados com HIV remédios traficados do exterior para o tratamento da doença, em combate a outro considerado perigoso e disponibilizado legalmente pelos hospitais.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

FROZEN - UMA AVENTURA CONGELANTE



Sem um vilão definido até o clímax da produção, contando também com uma princesa que é criticada por se apaixonar no mesmo dia em que conhece seu suposto amor verdadeiro, com um príncipe que se revela tudo, menos heroico, e ainda com um desfecho que prova que no final das contas, a donzela em perigo pode salvar a si mesma sem a ajuda de herói algum, Frozen chega quebrando sem sutileza alguma os padrões dos filmes de princesa da Disney estabelecidos há quase 77 anos com A Branca de Neve e os Sete Anões, finalmente realizando com sucesso completo o que a casa do Mickey Mouse vinha tentando fazer desde 2009 com A Princesa e o Sapo (fraco) e mais tardiamente, com Enrolados (muito bom). Aqui, diferentemente destes últimos, o roteiro subversivo, os adoráveis personagens, uma trilha contagiante e, veja só, até mesmo uma referência a Watchmen, tornam esta mais nova animação da produtora um clássico recém-nascido.

CAÇADORES DE OBRAS-PRIMAS



Recentemente, por motivos diversos, me pediram para fazer um corte didático do filme Tudo Pelo Poder, para ser apresentado em uma aula de faculdade, reduzindo-o a no máximo quarenta minutos. Me encontrei então com uma tremenda dificuldade de retirar um segundo sequer de sua duração, já que cada uma de suas cenas me parecia necessária para o entendimento da próxima. Antes me tivessem entregado este outro filme dirigido e estrelado por George Clooney, Caçadores de Obras-Primas, do qual se poderia retirar muitos minutos com facilidade, sem garantir com isso, porém, que o resto se tornasse interessante.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

ELA



Em um futuro (não tão diferente assim do nosso presente) onde cada indivíduo parece ter como melhor amigo o seu computador portátil, pouco comunicando-se um com o outro presencialmente, tornou-se desnecessário paras as pessoas demonstrarem seus gostos, estilos, opiniões ou posições sociais e políticas através da aparência. Estampas, logos, marcas e demais detalhes estilizados e ou personalizados fugiram da vestimenta do cidadão comum, em seu lugar, roupas coloridas, de uma paleta de tons básicos, que quando não se mostram chapadas em toda uma peça do vestuário, no máximo se espalham por alguma textura padronizada, unificando assim aquele conjunto de pessoas que em tempos de redes sociais e alta exposição da vida pessoal online, não precisam mais externar no mundo real suas nuances de personalidade. E deste modo, a roupa acaba servindo até mesmo para poupar o último resquício de comunicação entre eles, já que suas agradáveis cores vivas e suas texturas repetitivas parecem já adiantar pra o próximo “estou bem e tudo está normal, obrigado por perguntar”. E o figurino é apenas um detalhe admirável de Ela, novo longa-metragem de Spike Jonze, projeto que se mostra eficiente como estudo de personagem, romance, ficção-científica e debate filosófico. O que é algo considerável para um filme que fala basicamente sobre um homem apaixonado pela Siri.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

TRAPAÇA




     O Vencedor foi um bom filme que, reconhecido na maioria das premiações ao menos com indicações, deu destaque ao seu diretor, David O. Russell, que apresentava então uma direção apenas correta, mas não admirável. Claro, este filme e seu projeto seguinte, O Lado Bom da Vida, foram frutos da produção dos Weinstein, que pra quem não conhece, são dois produtores que conhecem muito bem o funcionamento das premiações e sempre garantem ter um de seus filhotes entre os favoritos; às vezes são bons filmes que realmente mereciam o reconhecimento (como o próprio O Vencedor), outras vezes são projetos medianos (como o Lado Bom da Vida), e outras vezes ainda, são filmes que decididamente não mereciam nem mesmo se perder tempo escrevendo sobre, quanto mais um Oscar (cof cof, Shakespeare Apaixonado... COF COF!). Dito isso, Trapaça, novo longa do cineasta, não faz parte destas últimas categorias, mas tampouco é integrante da primeira, acontece de ser apenas um bom filme sustentado basicamente por seu elenco. Ponto final.


     Sendo assim, suas DEZ (!) indicações ao Oscar são no mínimo exageradas, principalmente aquela referente à direção, e tendo em vista que pela primeira vez os Weinstein não estão por trás do projeto, as de Melhor Filme, Montagem e Roteiro também. Categorias onde foi claramente superestimado. Se em O Lado Bom da Vida elogiava detalhes da condução de O. Russell como baixar a câmera rapidamente para filmar as mãos nervosas do personagem de Bradley Cooper, aqui tenho de engolir minhas palavras e admitir que o realizador demonstra ter se apaixonado pela própria criação ao repetir o mesmo plano diversas vezes, só que desta vez sem propósito algum, fazendo disso quase que uma destas assinaturas inúteis como os flares de J.J. Abrams, as lentes grande-angulares de Tom Hooper e os travellings circulares de Michael Bay.


     Mas méritos sejam dados ao homem no mínimo por enxergar que a força de seu filme se encontra no bom elenco que tem em mãos, sacrificando sua montagem para inserir o trio principal em uma divertida interação ao invés de optar pela ordem cronológica onde demoraria para apresentar a dinâmica entre os personagens. Christian Bale é um golpista chamado Irving, que apesar de sua ocupação, é um homem muito dócil e bondoso, casado com a supérflua Rosalyn (Jennifer Lawrence), ele começa a nutrir sentimentos pela comparsa de golpes Sydney (Amy Adams). Mas acontece de os dois serem pegos pelo agente do FBI Richie DiMaso (Cooper de novo), e para escaparem da prisão certa, aceitam ajudá-lo a pegar um criminoso, interpretado por Robert De Niro, outro que repete a parceira com O. Russell aqui. Para isso, além de lidarem com o chefe de Richie, Stoddard (um comedido, mas sempre divertido Louis C.K.), terão de usar ainda o político interpretado por Jeremy Renner - cuja maquiagem e figurino o transformaram em um cosplay do Prefeito Shelbourne de Tá Chovendo Hambúrguer.


     Esta aparência caricata dos personagens, aliás, traz um certo bom humor ao filme que ajuda a ressaltar o carisma de seus personagens e a química admirável entre eles, assim, se Renner parece um personagem saído de uma animação, Adams e Lawrence se enfeitam sem pudores e apesar da rivalidade entre as personagens, até mesmo dividem um divertido beijo. E é engraçado até que ambas estejam indicadas em categorias opostas as do ano passado no Oscar, já que se fosse por este filme, Lawrence de fato mereceria uma estatueta, uma vez que o papel de Rosalyn foge ao lugar comum da atriz, da mulher forte e determinada, aqui com trejeitos e entonações cadentes na voz; em particular, a discussão que tem com Irving sobre um micro-ondas é hilária graças a sua performance. Já Amy Adams, embora também fuja ao seu tipo comum, não chega a ser a fervorosa e devota esposa que lhe deu a indicação no passado, onde sua performance assustadora em O Mestre deveria ter lhe rendido a estatueta, se vivêssemos em mundo justo. Por outro lado, Cooper passa batido e sua cena mais memorável deve-se aos bobs presos em sua cabeça, sendo realmente Bale o grande destaque de Trapaça. Gordo, o ator volta a demonstrar sua incrível capacidade de alterar a forma física para interpretar seus personagens, vivendo Irving com uma insuspeita gentileza que nos faz até perdoar a “profissão” do homem, que aos poucos, nos conquista como um protagonista inteligente e carismático.


     Todos eles, figuras excêntricas que parecem caber naquele mundinho concebido por David O. Russell, que desde o início já nos avisa: “Alguns dos fatos a seguir são reais”. Mas o aviso seria dispensável, já que, além das composições e do design de produção, nada mais parece ressaltar o absurdo no longa, e novamente o cineasta não aposta em nenhuma linguagem diferenciada, ficando geralmente num esquema café com leite apenas correto, e mesmo o roteiro não apresenta a mais interessante das tramas, sendo o inevitável plot twist ao final, esquecível. David O. Russel volta assim a realizar um projeto que, se pouco se pode criticar, tão pouco quanto pode-se elogiar também, e tirando o elenco, sempre infalível, mas também sempre repleto de escolhas seguras e queridas pelo público, ainda não entendo qual é a grande comoção que o cineasta parece gerar com seus filmes.  

NOTA: 7/10